Admirado por alguns dos maiores vultos da
intelectualidade sua contemporânea, foi
considerado um dos espíritos mais cultos do
século XVI. Relacionou-se com as principais
personalidades cultas europeias, o que o
levou a sentir o duro peso da Inquisição.
Nascido em 1502 em Alenquer, filho do
almoxarife Rui Dias de Góis e de Isabel
Gomes de Limi, entra para a corte, no Paço
da Ribeira, aos nove anos, como pagem do Rei
D. Manuel I, o Venturoso. Aí convive com
fidalgos de renome, homens de armas,
marinheiros, conhece certamente Gil Vicente
e todos os poetas admitidos na corte. É,
portanto, testemunha do período áureo de D.
Manuel, que morre em 1921. É companheiro de
infância de João, o futuro Rei D. João III,
que nascera no mesmo ano que ele.
Dada a sua ascendência flamenga por parte da
mãe, em 1523 D. João III, nomeou-o escrivão
da feitoria de Antuérpia, na Flandres, onde
se negociavam as mercadorias vindas do
Oriente. Uma notícia da época refere que "servio
nas partes da Alemanha, Frandes , Brabante e
Holanda em negoçeos de muita importançia
aonde foy tão quisto e aceyto que o tinhão
todos por seus natural".
Em 1529 parte em missão oficial para o
Báltico, visitando Dantzig, segue até á
Lituânia, e no regresso passou por Paznan e
Cracóvia.
Em 1531, de novo em missão real vai á
Dinamarca, donde segue para a Polónia,
visitando no caminho Lubeque e Vitemberga,
onde, conhece Lutero e Melanchton. De
regresso a Antuérpia fixa-se em Lovaina.
Em 1533 desiste do cargo de tesoureiro da
Casa da Índia, para o qual D. João III o
nomeara, e do oficio na feitoria de
Antuérpia, entrando numa nova fase da sua
vida, a de escolar. Pede ao rei que o deixe
ir em peregrinação a Santiago de Compostela
e lhe permita que continue os seus estudos,
principalmente em Latim, língua comum a
todos os intelectuais da época.
Ávido de saber e atento aos problemas do seu
tempo, não desperdiça a oportunidade de
enriquecer culturalmente.
Viajou até Paris, Estrasburgo e Friburgo,
onde conheceu Erasmo, grande filósofo
humanista, com quem conviveu um ano,
chegando a ser seu hóspede. As longas
conversas que teve com ele, jamais as
esquecerá. Segue depois para Pádua, onde se
inscreve na Universidade. É aqui que conhece
o padre Jesuíta Simão Rodrigues de Azevedo
que mais tarde, estando em Évora, virá a
denunciá-lo ao tribunal da Inquisição da
cidade. Viajou por diversas cidades de
Itália, onde contacta com grandes figuras do
Humanismo.
Terminados os estudos em Pádua, regressa a
Lovaina onde continua a estudar. É aqui que,
em 1539, casa com Joana Van Hargen (os anos
que medeiam entre 1539 e 1542 correspondem
ao período de criação deste humanista que
publica várias obras).
A guerra que assolou a região da Flandres
leva-o a regressar à Pátria, em 1545.
Possuidor de uma vasta cultura, prestigiado
pelas amizades que contraíra na Europa,
convence-se que talvez possa contribuir para
a criação de uma forte Corrente Humanista em
Portugal.
Em 1548, nasce então o historiógrafo,
nomeado guarda-mor da Torre do Tombo. Anos
mais tarde, em 1559, o cardeal D. Henrique
encarrega-o de escrever a Crónica do
Felicíssimo Rei D. Manuel e no ano seguinte
a Crónica do príncipe D. João. Nestas obras
revela os seus dons de cronista, usando de
rigor histórico no estudo dos factos.
Damião de Góis manteve sempre o contacto com
os amigos que tinha deixado por toda a
Europa. Trocava com eles correspondência,
nomeadamente com Erasmo e outros humanistas
suspeitos de professarem doutrinas
contrárias a Igreja Católica. Em sua casa
recebia estrangeiros que vinham a Lisboa,
onde dava grandes festas, a ponto de o
definirem "patronus incomparabilís", o que
mais tarde serviria de matéria de acusação
no processo do Santo Ofício.
Como já foi dito, Damião de Góis foi
denunciado à Inquisição em 1545 pelo padre
Simão Rodrigues de Azevedo, seu antigo
companheiro de estudos em Pádua. Conseguiu
provar a sua inocência, mas em 1571 foi
reaberto o processo com novas denuncias de
heresia, caiu nas "garras" do Santo Ofício.
Foi preso, sujeito a processo e condenado a
" cárcere perpétuo", no Mosteiro da Batalha.
Tem 69 anos, está velho e doente, o corpo
cheio de feridas(...) "pouco falta para me
julgarem leproso"(...) "peço-lhes que me
mandem emprestar um livro em Latim para ler,
porque estou apodrecendo de ociosidade e com
ler se me passam muitos pensamentos".
Ao que tudo indica aliviaram-lhe a pena ,
pois é encontrado morto a 30 de Janeiro de
1574, parcialmente calcinado, caído sobre a
lareira de sua casa em Alenquer,
suspeitando-se de assassinato.
Assim morreu Damião de Góis. O seu espírito
de Homem moderno revelou-se na tolerância,
na dignificação dos valores humanos, ideal
de vida que não encontrou no ambiente
português as necessárias condições de
existência, não se tornando possível a
criação de um " humanismo nacional".