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Prof.ª Bela Ferreira

Damião de Góis

 

 
 

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19-01-2011 18:32

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Admirado por alguns dos maiores vultos da intelectualidade sua contemporânea, foi considerado um dos espíritos mais cultos do século XVI. Relacionou-se com as principais personalidades cultas europeias, o que o levou a sentir o duro peso da Inquisição.


Nascido em 1502 em Alenquer, filho do almoxarife Rui Dias de Góis e de Isabel Gomes de Limi, entra para a corte, no Paço da Ribeira, aos nove anos, como pagem do Rei D. Manuel I, o Venturoso. Aí convive com fidalgos de renome, homens de armas, marinheiros, conhece certamente Gil Vicente e todos os poetas admitidos na corte. É, portanto, testemunha do período áureo de D. Manuel, que morre em 1921. É companheiro de infância de João, o futuro Rei D. João III, que nascera no mesmo ano que ele.


Dada a sua ascendência flamenga por parte da mãe, em 1523 D. João III, nomeou-o escrivão da feitoria de Antuérpia, na Flandres, onde se negociavam as mercadorias vindas do Oriente. Uma notícia da época refere que "servio nas partes da Alemanha, Frandes , Brabante e Holanda em negoçeos de muita importançia aonde foy tão quisto e aceyto que o tinhão todos por seus natural".

 

Em 1529 parte em missão oficial para o Báltico, visitando Dantzig, segue até á Lituânia, e no regresso passou por Paznan e Cracóvia.


Em 1531, de novo em missão real vai á Dinamarca, donde segue para a Polónia, visitando no caminho Lubeque e Vitemberga, onde, conhece Lutero e Melanchton. De regresso a Antuérpia fixa-se em Lovaina.


Em 1533 desiste do cargo de tesoureiro da Casa da Índia, para o qual D. João III o nomeara, e do oficio na feitoria de Antuérpia, entrando numa nova fase da sua vida, a de escolar. Pede ao rei que o deixe ir em peregrinação a Santiago de Compostela e lhe permita que continue os seus estudos, principalmente em Latim, língua comum a todos os intelectuais da época.

Ávido de saber e atento aos problemas do seu tempo, não desperdiça a oportunidade de enriquecer culturalmente.


Viajou até Paris, Estrasburgo e Friburgo, onde conheceu Erasmo, grande filósofo humanista, com quem conviveu um ano, chegando a ser seu hóspede. As longas conversas que teve com ele, jamais as esquecerá. Segue depois para Pádua, onde se inscreve na Universidade. É aqui que conhece o padre Jesuíta Simão Rodrigues de Azevedo que mais tarde, estando em Évora, virá a denunciá-lo ao tribunal da Inquisição da cidade. Viajou por diversas cidades de Itália, onde contacta com grandes figuras do Humanismo.


Terminados os estudos em Pádua, regressa a Lovaina onde continua a estudar. É aqui que, em 1539, casa com Joana Van Hargen (os anos que medeiam entre 1539 e 1542 correspondem ao período de criação deste humanista que publica várias obras).


A guerra que assolou a região da Flandres leva-o a regressar à Pátria, em 1545. Possuidor de uma vasta cultura, prestigiado pelas amizades que contraíra na Europa, convence-se que talvez possa contribuir para a criação de uma forte Corrente Humanista em Portugal.


Em 1548, nasce então o historiógrafo, nomeado guarda-mor da Torre do Tombo. Anos mais tarde, em 1559, o cardeal D. Henrique encarrega-o de escrever a Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel e no ano seguinte a Crónica do príncipe D. João. Nestas obras revela os seus dons de cronista, usando de rigor histórico no estudo dos factos.


Damião de Góis manteve sempre o contacto com os amigos que tinha deixado por toda a Europa. Trocava com eles correspondência, nomeadamente com Erasmo e outros humanistas suspeitos de professarem doutrinas contrárias a Igreja Católica. Em sua casa recebia estrangeiros que vinham a Lisboa, onde dava grandes festas, a ponto de o definirem "patronus incomparabilís", o que mais tarde serviria de matéria de acusação no processo do Santo Ofício.


Como já foi dito, Damião de Góis foi denunciado à Inquisição em 1545 pelo padre Simão Rodrigues de Azevedo, seu antigo companheiro de estudos em Pádua. Conseguiu provar a sua inocência, mas em 1571 foi reaberto o processo com novas denuncias de heresia, caiu nas "garras" do Santo Ofício. Foi preso, sujeito a processo e condenado a " cárcere perpétuo", no Mosteiro da Batalha. Tem 69 anos, está velho e doente, o corpo cheio de feridas(...) "pouco falta para me julgarem leproso"(...) "peço-lhes que me mandem emprestar um livro em Latim para ler, porque estou apodrecendo de ociosidade e com ler se me passam muitos pensamentos".


Ao que tudo indica aliviaram-lhe a pena , pois é encontrado morto a 30 de Janeiro de 1574, parcialmente calcinado, caído sobre a lareira de sua casa em Alenquer, suspeitando-se de assassinato.


Assim morreu Damião de Góis. O seu espírito de Homem moderno revelou-se na tolerância, na dignificação dos valores humanos, ideal de vida que não encontrou no ambiente português as necessárias condições de existência, não se tornando possível a criação de um " humanismo nacional".

 
 

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Diplomata, músico (?), cidadão do mundo, insaciável viajante, ocupou várias funções no estrangeiro. Atento aos problemas do seu tempo e ávido de saber, Damião de Góis é o exemplo do verdadeiro Homem do Renascimento.

 

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