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Prof.ª Margarida Cardoso

Senghor

 

 
 

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06-03-2009 17:04

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Foi em 20 de Dezembro de 2002 que morreu, na Normandia, um dos maiores vultos da poesia francófona: Senghor. O seu coração errante mergulhou, um dia, na sombra profunda do tempo para melhor escutar a voz do sangue que ecoa no seu nome. Sangue. Senghor. Senhor.


Revelou, então, a origem do seu apelido, descoberta, em Coimbra, no acaso dos segredos e prodígios que os livros encerram. Como afirma no poema “Élégie des saudades”, trata-se de uma corruptela da palavra “senhor”, alcunha que um capitão pusera outrora a um corajoso homem do mar senegalês:
J’écoute au fond de moi le chant et la voix d’ombre des saudades.
Est-ce la voix ancienne, la goutte de sang portugais qui remonte du fond des âges? ( ...)
Goutte de sang ou bien senhor, le sobriquet qu’un capitaine donna autrefois à un brave laptot ?
J’ai retrouvé mon sang, j’ai découvert mon nom, l’autre année à Coïmbre, sous la brousse des livres.


Se no fundo de si próprio, nesse abismo da vertigem em que o passado e o presente se confundem, continua a ressoar o canto elegíaco da saudade, a verdade é que o mar da negritude lhe submerge a alma: ”Mon sang portugais s’est perdu dans la mer de ma Négritude”.


Nascido em 6 de Junho de 1906, em Joal, no Senegal, Léopold Sédar Senghor instala-se, aos vinte e dois anos, graças a uma bolsa de estudos, em Paris, importante centro cultural para onde, na altura, convergiam artistas e intelectuais do mundo inteiro. Era a época em que as potências coloniais descobriam a arte africana e os espirituais negros. Dividido entre o território que o viu nascer e o país anfitrião, jamais deixou de exprimir a nostalgia das suas raízes (“Ah ! de nouveau dormir dans le lit frais de mon enfance!”), mesmo quando respirava o ar do que dizia ser “une chambre peuplée de Latins et de Grecs”. Um poeta para quem “l’émotion est nègre comme la raison est héllène” não pode senão representar a síntese dos dois mundos que lhe alimentam o espírito e encarnar a esperança de uma união conciliadora e universal entre todas as raças. Contudo, as suas origens nunca o deixaram esquecer a situação dos países colonizados.


Com o escritor antilhano Aimé Césaire, seu amigo, foi responsável pela criação do chamado movimento da negritude que Sartre define como “um racismo anti-racista” e que Senghor considera ser “o conjunto dos valores culturais do mundo negro”, capaz de assimilar a “civilização do universal” sem, no entanto, perder a sua identidade nem a sua dignidade. Não é por acaso que se sente irmão de armas e de sangue dos atiradores senegaleses mortos pela França durante a Primeira Guerra Mundial e se insurge contra o aproveitamento risível da imagem destas figuras populares nos anúncios publicitários de Banania, prosaica mistura de pó de banana, chocolate e açúcar, destinada exclusivamente ao consumo europeu. Poeta militante, proclama aos quatro ventos: “Je déchirerai les rires Banania sur tous les murs de France”. A fórmula “y’a bon” que completa o retrato do militar é um exemplo do que os franceses designam por “petit nègre”, linguagem caricatural destinada a ridicularizar a fala dos africanos. Após a independência do Senegal, em 1958, a figura do atirador foi estilizada, dissiparam-se as alusões ao passado colonial e o produto recorreu a outra imagem de marca: o sorriso de uma criança europeia, principal consumidor do produto. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...


Embora a ideologia subjacente à negritude tivesse sido criticada pelas gerações posteriores, por se revelar muito dependente das concepções europeias sobre o continente africano, ela contribuiu para pôr em causa o discurso colonialista. É inegável a influência europeia na formação cultural de Senghor, como é indelével a marca deixada pela gota de sangue português no mar da sua negritude. Mas é sobretudo a literatura africana que o interessa e impressiona: “J’ai surtout lu, plus exactement écouté, transcrit et commenté des poèmes négro-africains”, afirma o poeta.


Presidente da República do Senegal de 1963 a 1980, Senghor foi o primeiro Negro a entrar para a Academia Francesa, vendo assim reconhecidos o seu valor e a sua obra. Após uma vida de luta, talvez o seu coração errante vogue agora num mar de paz em busca da Ilha Feliz:
“Perdu dans l’Océan Pacifique, j’aborde l’Île Heureuse - mon coeur est toujours en errance, la mer illimitée”.

 
 

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Presidente da República do Senegal de 1963 a 1980, Senghor foi o primeiro Negro a entrar para a Academia Francesa, vendo assim reconhecidos o seu valor e a sua obra.

 

 
       

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