Foi em 20 de Dezembro de 2002
que morreu, na Normandia, um dos maiores
vultos da poesia francófona: Senghor. O seu
coração errante mergulhou, um dia, na sombra
profunda do tempo para melhor escutar a voz
do sangue que ecoa no seu nome. Sangue.
Senghor. Senhor.
Revelou, então, a origem do seu apelido,
descoberta, em Coimbra, no acaso dos
segredos e prodígios que os livros encerram.
Como afirma no poema “Élégie des saudades”,
trata-se de uma corruptela da palavra
“senhor”, alcunha que um capitão pusera
outrora a um corajoso homem do mar
senegalês:
J’écoute au fond de moi le chant et la voix
d’ombre des saudades.
Est-ce la voix ancienne, la goutte de sang
portugais qui remonte du fond des âges? (
...)
Goutte de sang ou bien senhor, le sobriquet
qu’un capitaine donna autrefois à un brave
laptot ?
J’ai retrouvé mon sang, j’ai découvert mon
nom, l’autre année à Coïmbre, sous la
brousse des livres.
Se no fundo de si próprio, nesse abismo da
vertigem em que o passado e o presente se
confundem, continua a ressoar o canto
elegíaco da saudade, a verdade é que o mar
da negritude lhe submerge a alma: ”Mon sang
portugais s’est perdu dans la mer de ma
Négritude”.
Nascido em 6 de Junho de 1906, em Joal, no
Senegal, Léopold Sédar Senghor instala-se,
aos vinte e dois anos, graças a uma bolsa de
estudos, em Paris, importante centro
cultural para onde, na altura, convergiam
artistas e intelectuais do mundo inteiro.
Era a época em que as potências coloniais
descobriam a arte africana e os espirituais
negros. Dividido entre o território que o
viu nascer e o país anfitrião, jamais deixou
de exprimir a nostalgia das suas raízes (“Ah
! de nouveau dormir dans le lit frais de mon
enfance!”), mesmo quando respirava o ar do
que dizia ser “une chambre peuplée de Latins
et de Grecs”. Um poeta para quem “l’émotion
est nègre comme la raison est héllène” não
pode senão representar a síntese dos dois
mundos que lhe alimentam o espírito e
encarnar a esperança de uma união
conciliadora e universal entre todas as
raças. Contudo, as suas origens nunca o
deixaram esquecer a situação dos países
colonizados.
Com o escritor antilhano Aimé Césaire, seu
amigo, foi responsável pela criação do
chamado movimento da negritude que Sartre
define como “um racismo anti-racista” e que
Senghor considera ser “o conjunto dos
valores culturais do mundo negro”, capaz de
assimilar a “civilização do universal” sem,
no entanto, perder a sua identidade nem a
sua dignidade. Não é por acaso que se sente
irmão de armas e de sangue dos atiradores
senegaleses mortos pela França durante a
Primeira Guerra Mundial e se insurge contra
o aproveitamento risível da imagem destas
figuras populares nos anúncios publicitários
de Banania, prosaica mistura de pó de
banana, chocolate e açúcar, destinada
exclusivamente ao consumo europeu. Poeta
militante, proclama aos quatro ventos: “Je
déchirerai les rires Banania sur tous les
murs de France”. A fórmula “y’a bon” que
completa o retrato do militar é um exemplo
do que os franceses designam por “petit
nègre”, linguagem caricatural destinada a
ridicularizar a fala dos africanos. Após a
independência do Senegal, em 1958, a figura
do atirador foi estilizada, dissiparam-se as
alusões ao passado colonial e o produto
recorreu a outra imagem de marca: o sorriso
de uma criança europeia, principal
consumidor do produto. Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades...
Embora a ideologia subjacente à negritude
tivesse sido criticada pelas gerações
posteriores, por se revelar muito dependente
das concepções europeias sobre o continente
africano, ela contribuiu para pôr em causa o
discurso colonialista. É inegável a
influência europeia na formação cultural de
Senghor, como é indelével a marca deixada
pela gota de sangue português no mar da sua
negritude. Mas é sobretudo a literatura
africana que o interessa e impressiona:
“J’ai surtout lu, plus exactement écouté,
transcrit et commenté des poèmes
négro-africains”, afirma o poeta.
Presidente da República do Senegal de 1963 a
1980, Senghor foi o primeiro Negro a entrar
para a Academia Francesa, vendo assim
reconhecidos o seu valor e a sua obra. Após
uma vida de luta, talvez o seu coração
errante vogue agora num mar de paz em busca
da Ilha Feliz:
“Perdu dans l’Océan Pacifique, j’aborde
l’Île Heureuse - mon coeur est toujours en
errance, la mer illimitée”.