"There are laws to
protect the freedom of the press’s speech,
but none that are worth anything to protect
the people from de press” Mark Twain
(1835-1910), escritor americano."
No mesmo dia em que
Salazar se sagrava o maior dos Grandes
Portugueses, no concurso homónimo da RTP, o
jornal Público destacava, na primeira
página: “Extrema-direita quer conquistar
associações de estudantes. Juventude
nacionalista concorre às eleições de amanhã
para associação de Letras de Lisboa.”
(Público, 26/03/07) Na notícia, que ocupava
duas páginas, eram atribuídas a Rita Vaz,
dirigente da Juventude Nacionalista do PNR,
as seguintes palavras, proferidas a
propósito de um confronto entre estudantes
universitários de direita e estudantes de
esquerda, que pintavam um mural contra o
fascismo: “Nós, como somos pela liberdade de
expressão, fomos lá apoiá-los. Éramos cerca
de 50, mas sem intenção de violência. Só
queríamos demonstrar que também temos voz.
Queríamos marcar presença.”
Na mesma semana em que
Salazar se sagrava o maior dos Grandes
Portugueses, num concurso que os
especialistas vêm lembrar que não é para
levar a sério, ora porque não apresenta
fiabilidade estatística, ora porque a RTP
manipulou o processo, ora por isto, ora por
aquilo, o mesmo PNR colocou em pleno Marquês
de Pombal um cartaz infame onde se lê:
“Basta de imigração. Nacionalismo é solução.
Façam boa viagem. Portugal aos portugueses.”
Sartre disse, acerca da
democracia, que ela é escola notável de
fascistas, porque tolera por natureza todas
as opiniões. Quando a opinião adquire, como
acontece nas democracias ocidentais, um
estatuto privilegiado e intocável, ela passa
a minar os próprios princípios basilares de
uma sociedade justa e livre. A opinião, pela
sua omnipresença, torna-se ambivalente, o
que lhe permite ser, ao mesmo tempo,
poderosa e pretensamente inofensiva: ela é
um direito - que se explicita tantas vezes
através do detestável “tenho direito à minha
opinião” - que não pressupõe deveres, o
dever de construir posições informadas,
esclarecidas, fundamentadas - porque,
afinal, “é só a minha opinião”. A coberto
deste direito inconsequente pode-se ofender,
humilhar, censurar, discriminar, excluir -
sempre em nome da opinião.
Será o voto apenas mais
uma forma de opinião? Em França, em 2001, os
cidadãos e as cidadãs tiveram
momentaneamente a percepção do que fica em
causa quando se permite, em nome da
liberdade e da livre expressão da opinião,
que se formem e se fortaleçam, dentro da
democracia, ideologias tão contrárias a ela.
Esta perversão da democracia é, aliás,
explorada com grande êxito pelos movimentos
neo-nazis espalhados pelo mundo. Basta abrir
um site do odioso Ku Klux Klan, por exemplo,
para perceber quão caros lhes são “the
rights to Free Speech, Free Expression and
Freedom of the Press” consignados na
Constituição Americana. As palavras de Rita
Vaz transcritas acima fazem eco desta
subversão.
Na Constituição da
República Portuguesa, documento edificado
num momento vital da história recente do
país, quando as ideias de liberdade e de
justiça aproximavam esquerda e direita,
quando a celebração da democracia implicava
a rejeição e a condenação do fascismo, pela
esquerda e pela direita, pode ler-se, no nº
4 do Artigo 46º: “Não são consentidas
associações armadas nem de tipo militar,
militarizadas ou paramilitares, nem
organizações que perfilhem a ideologia
fascista.” Naquele ano de 1976 não pareceu
atentatório da liberdade proibir aquilo que,
por inerência, a despreza. Em democracia, as
pessoas baixam a guarda e as palavras e os
actos perdem os seus sentidos, tudo reduzido
a opinião: oram opinam os oprimidos, ora
opinam os opressores; em democracia todos
têm de ter voz: ora a voz dos oprimidos, ora
a voz dos opressores; numa perturbadora
equivalência moral que permite aproximar
Salazar do Cunhal e é afinal tudo o mesmo. E
assim se conta uma história onde não há maus
nem bons, onde as circunstâncias, o “tempo”,
tudo sancionam, tudo mitigam. Exorcizam-se
os fantasmas do passado, bem e mal apertam
as mãos e dão o beijo da paz.
Para a história da RTP,
volvidos 33 anos sobre a Revolução, fica o
seu papel de dar voz ao fascismo, aos
fascistas, através de um concurso que foi
uma prova de fogo à juventude e à vitalidade
da democracia e que sentenciou, nas palavras
de Eduardo Lourenço, a “morte simbólica do
25 de Abril”. E se os fascistas portugueses
não se conheciam, ou se mantinham as suas
opiniões no silêncio, agora já podem erguer
a sua “voz”. Neste sentido, é legítimo
perguntar se a RTP não será culpada de acto
ilícito, ao fomentar um movimento nacional
de apoio à ideologia fascista. Dela não teve
grande opinião o poeta José Gomes Ferreira,
em 1975, quando escreveu:
A Televisão
contribui muito para a minha educação
nas horas mais ingratas
da contra-revolução.
Ensinou-me sobretudo
a aguçar o gosto de usar gravatas
de seda e de veludo
- para enforcar a imaginação.
in Poeta Militante III
Nota: A
Procuradoria-Geral da República (PGR)
considerou que o cartaz colocado pelo PNR no
Marquês de Pombal não é ilícito. O cartaz
permanecerá exposto até 2 de Maio.
“Ou poderemos Abril ter perdido/O dia
inicial inteiro e limpo/Que habitou nosso
tempo mais concreto?” Sophia de Mello
Breyner