Tive muitas dúvidas. Muitas. No momento em que recebi
indicação do Ministério da Educação sobre a validação como
Avaliador Externo no processo de Reconhecimento, Validação e
Certificação de Competências (RVCC).
Pensei em primeiro lugar, de uma altiva concepção do mundo e do saber, que a
validação de competências adquiridas devia ter lugar no sistema de ensino dito
tradicional. Aprender, avaliar, validar. Foi o sistema no qual adquiri todo o
meu conhecimento académico. Esse, para mim, era o caminho correcto e não através
de um processo que não avalia, antes, reconhece conhecimentos. Depois, em
julgamento de lógica e evidência, pensei que um processo assim só podia ser
criado para aumentar artificialmente a escolaridade de uma população que a não
tentou procurar pela via do ensino tradicional. Isto, no meu pensamento surgia
associado à ideia de qualificação dos portugueses à luz de uns quantos números
em imensas tabelas a comunicar à União Europeia. Por último pensei, em
julgamento de valor, que o modelo aplicado no nosso Portugal demasiado português
iria resultar num “facilitismo” e numa coisa qualquer parecida com aquilo que
alguém, num gabinete, desejava que fosse.
Hoje, passados quatro anos de trabalho com Centros Novas Oportunidades como o da
Escola Secundária de Pombal, olho para o sistema RVCC de forma completamente
diferente. Em discussão sobre esta minha mudança de opinião um dia fiz uma
pergunta a um professor meu amigo: Quando é que aprendeu mais? Nos bancos da
Universidade que o preparava para ser professor ou ao fim dos seus 20 anos de
prática? A resposta foi: com a prática. Eu respondi: E se essa prática pudesse
ser reconhecida e validada, não o aceitaria? Não o reconhecia? Não achava
importante? E se, ainda por cima, pudesse ser convertida num qualquer grau
académico não acharia justo? Não lhe tinha custado a aprender como o tinha feito
nos bancos de uma qualquer sala de aula?
Assisti já a um grande número de júris de validação. Centenas e centenas de
pessoas. Todas ou quase todas acabaram com as minhas dúvidas iniciais. Este
processo é feito para dar uma nova oportunidade. Por um lado, a quem, por
motivos que a vida actual já não entende ou esqueceu – tempos difíceis, vidas
interrompidas, dificuldades económicas ou familiares – não conseguiu estudar.
Por outro, a tanta e tanta gente que a escola não conseguiu seduzir e que a vida
profissional fascinou muito mais.
Hoje, todos ou quase todos dizem que regressam por via do processo RVCC ao mundo
da aprendizagem. Um regresso sempre desejado. Um primeiro passo num gesto muito
maior. O de ter a coragem de voltar atrás e admitir a importância de tudo o que
a escola não lhes ensinou. Hoje, os Centros Novas Oportunidades, pelo menos
aqueles que tenho acompanhado e em particular o da Escola Secundária de Pombal,
são exemplos do novo paradigma do conhecimento e locais que espelham
profissionalismo, seriedade e humanidade. Tenho muitas vezes dito em sessões
públicas de debate que, em muitas coisas, o Centro Novas Oportunidades da Escola
Secundária de Pombal tem sido um exemplo a seguir, pela organização e pela
qualidade.
Hoje, o processo de reconhecimento de aprendizagem não passa por avaliar
conhecimento. Passa por validar competências. A escola tradicional pode e deve
continuar. Talvez ainda mais exigente. Talvez ainda mais científica. Mas, por
outro lado, a sociedade e o paradigma do conhecimento mudaram. Mudaram no
sentido de precisarem de mais opções, de mais oportunidades, de mais processos
para validar, reconhecer que existe outro conhecimento para além do conhecimento
teórico e prático aprendido nas salas de aula. Existe um mundo para além do
tradicional processo de ensino-aprendizagem. Esse mundo é o das competências
adquiridas ao longo da vida. Dois “mundos” que podem e devem existir no seio de
uma escola moderna, aberta, plural, inclusiva.
Hoje, vejo o processo RVCC, não como um meio de qualificar os portugueses,
porque não o é, nem esse é o objectivo principal deste modelo, mas, acima de
tudo, como um primeiro passo nesse caminho. Um passo que pode abrir portas à
formação profissional, à formação especializada, à continuação dos estudos, à
formação de dupla certificação (escolar e profissional) ou, simplesmente, à
valorização do próprio adulto que conclui o processo.
Sempre defendi que as escolas devem ser modelos exigentes de criação e
divulgação do conhecimento. É esse o seu papel. Mas hoje, no momento em que
vivemos, deve ser também um local de encontro entre a oportunidade e o
reconhecimento de que a vida também cria saber. Isso é o processo de RVCC. A
aprendizagem de uma vida reconhecida como conhecimento. Um ponto de partida e
não um ponto de chegada.