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Elsa Proença, Professora de Filosofia

10 de Dezembro

Neste 59º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), apetece sublinhar a nossa falta de jeito para a tornar uma prática quotidiana.

 
 

  semente

09-11-2009 08:57

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Não vale a pena apontar o dedo a ninguém. É bom não esquecer que quando apontamos um dedo alguém, seja um ditador, uma empresa ou um simples funcionário público, estamos a apontar três dedos a nós próprios. Não há como fugir ao facto de, todos nós, contribuirmos para a situação em que vivemos. E nem vale a pena contorcer-se na cadeira porque me atrevo a comparar o leitor a qualquer Hitler. Vale a pena, sim, não esquecer que qualquer um de nós arrasta a sua pequena ditadurazinha por onde passa. Vale a pena pensar na utilidade que damos à liberdade de expressão e, se se lembrarem daquilo que têm feito com ela nos últimos tempos, facilmente descobrirão que não andaram por aí a tecer elogios a ninguém, o que até se compreende. A nossa cultura manda guardar os elogios para situações muito raras. E nós, excessivamente formatados como estamos, obedecemos.


Sabemos bem que de pouco valem os trinta artigos da DUDH, se formos analfafectos. O analfafecto até pode ser muito dado a leituras, generalistas e de especialidade, mas, fora dos pequenos ou grandes castelos de papel, está-se nas tintas para o mundo real. O analfafecto pode ser um aluno do quadro de honra, mas, fora das demandas académicas, sabe que vive na selva e o melhor que tem a fazer é conseguir a melhor árvore, mesmo que para isso tenha que fazer alguma coisa mais tortuosa. E pode ser uma pessoa banalíssima, chateadíssima com o mundo, como se o mundo tivesse sido feito para seu prazer pessoal, mas, tendo algo corrido mal, entretanto, impõe-se-lhe a tarefa de o pôr em ordem. E são estes analfafectos os que mais me assustam. Passam a vida a dar nas orelhas dos outros. Foi a pensar nestas pessoas e na sua recta visão que o Criador se deu ao trabalho de produzir a orelha. E deu logo um par a cada um de nós. Malícia não Lhe falta…


Percebe-se agora a razão de existirem legiões de orelhas moucas e, quanto à orelha do Van Gogh, bem, foi absolutamente compreensível. É bem possível que dispensar uma orelha venha a ser uma estratégia de sobrevivência da espécie.


Voltando àquele pedaço de papel com 59 anos, só posso comprovar que é ficção, ficção da boa, letra mortiça, enquanto não revitalizarmos o afecto.


É bonito andar, há 59 anos, a papaguear que somos todos iguais e ao mesmo tempo são as diferenças que se nos metem pelos olhos dentro e somos incapazes de nos deixar afectar pelos outros.


Felizmente o Natal está à porta. Brevemente poderemos diluir todo este desconforto nas passas e nos presentes.

 
 

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