Não vale a pena apontar o dedo a ninguém. É
bom não esquecer que quando apontamos um
dedo alguém, seja um ditador, uma empresa ou
um simples funcionário público, estamos a
apontar três dedos a nós próprios. Não há
como fugir ao facto de, todos nós,
contribuirmos para a situação em que
vivemos. E nem vale a pena contorcer-se na
cadeira porque me atrevo a comparar o leitor
a qualquer Hitler. Vale a pena, sim, não
esquecer que qualquer um de nós arrasta a
sua pequena ditadurazinha por onde passa.
Vale a pena pensar na utilidade que damos à
liberdade de expressão e, se se lembrarem
daquilo que têm feito com ela nos últimos
tempos, facilmente descobrirão que não
andaram por aí a tecer elogios a ninguém, o
que até se compreende. A nossa cultura manda
guardar os elogios para situações muito
raras. E nós, excessivamente formatados como
estamos, obedecemos.
Sabemos bem que de pouco valem os trinta
artigos da DUDH, se formos analfafectos. O
analfafecto até pode ser muito dado a
leituras, generalistas e de especialidade,
mas, fora dos pequenos ou grandes castelos
de papel, está-se nas tintas para o mundo
real. O analfafecto pode ser um aluno do
quadro de honra, mas, fora das demandas
académicas, sabe que vive na selva e o
melhor que tem a fazer é conseguir a melhor
árvore, mesmo que para isso tenha que fazer
alguma coisa mais tortuosa. E pode ser uma
pessoa banalíssima, chateadíssima com o
mundo, como se o mundo tivesse sido feito
para seu prazer pessoal, mas, tendo algo
corrido mal, entretanto, impõe-se-lhe a
tarefa de o pôr em ordem. E são estes
analfafectos os que mais me assustam. Passam
a vida a dar nas orelhas dos outros. Foi a
pensar nestas pessoas e na sua recta visão
que o Criador se deu ao trabalho de produzir
a orelha. E deu logo um par a cada um de
nós. Malícia não Lhe falta…
Percebe-se agora a razão de existirem
legiões de orelhas moucas e, quanto à orelha
do Van Gogh, bem, foi absolutamente
compreensível. É bem possível que dispensar
uma orelha venha a ser uma estratégia de
sobrevivência da espécie.
Voltando àquele pedaço de papel com 59 anos,
só posso comprovar que é ficção, ficção da
boa, letra mortiça, enquanto não
revitalizarmos o afecto.
É bonito andar, há 59 anos, a papaguear que
somos todos iguais e ao mesmo tempo são as
diferenças que se nos metem pelos olhos
dentro e somos incapazes de nos deixar
afectar pelos outros.
Felizmente o Natal está à porta. Brevemente
poderemos diluir todo este desconforto nas
passas e nos presentes.