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O sonho da conquista do espaço, o desejo de poder e riqueza, o individualismo, o liberalismo selvagem, continuam a sobrepor-se ao espírito filantrópico à volta do qual deveria orbitar toda a actividade humana.

2009.06.24    Por: Lina Oliveira, Professora de Português

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“Neil Armstrong pôs os pés na Lua / e a Humanidade inteira saudou nele / o Homem Novo. / No calendário da História sublinhou-se / com espesso traço o memorável feito.” É assim que António Gedeão inicia o seu “Poema do Homem Novo”, indo ao encontro do célebre prolóquio com que o astronauta sintetizou o momento inaugural da alunagem a 20 de Julho de 1969: “É um pequeno passo para um homem, um gigantesco salto para a Humanidade”. As rivalidades políticas que tinham lançado as duas grandes potências mundiais na corrida ao espaço ficaram momentaneamente em segundo plano e por todo o planeta milhões de pessoas acreditaram estar a assistir ao princípio de uma nova era.


O aniversário dos quarenta anos da efeméride é um convite a balanços. Se é verdade que as expectativas em termos de avanço tecnológico e científico não foram goradas – e hoje uma parte da humanidade, ainda que pequena, tem à sua disposição meios para viver mais e melhor –, tem-se tornado cada vez mais evidente que o ser humano continua a não estar no centro das preocupações dos líderes mundiais, a quem cabe a maior responsabilidade na garantia dos direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos.


O sonho da conquista do espaço, o desejo de poder e riqueza, o individualismo, o liberalismo selvagem, continuam a sobrepor-se ao espírito filantrópico à volta do qual deveria orbitar toda a actividade humana. Conflitos entre estados, regimes autocráticos, sistemas económicos vorazes, são realidades negras do mundo em que vivemos, que não se compadece da vida humana, reduzida a estatísticas ou a “danos colaterais”. O “Homem Novo” de Gedeão, que falou em nome da espécie humana, foi o mesmo que a “Humanidade inteira” pôde ver, a “espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria, / exactamente como faria o Homem Velho.” O gesto imperialista tão familiar não augurava nada de novo. As expectativas planetárias de um novo futuro estavam comprometidas à partida.


O aniversário dos quarenta anos da efeméride é um convite à reflexão sobre as nossas escolhas, num tempo em que ao sofrimento humano já tão velho se junta a perspectiva real da destruição da terra. Compete-nos a todos e a todas, em sociedade – à escola, às professoras e aos professores, às gerações jovens –, repensar valores e estilos de vida, estabelecer prioridades, delinear estratégias, tomar posição, intervir, exigir de quem tem o poder de decisão, lutar: erguer a bandeira de um novo paradigma para a humanidade que coloque no centro o respeito pelo Humano e pela Vida.


Com os pés bem assentes na Terra.



 

 

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