Ali estava eu... mais uma vez recostado na
cadeira pronto para levantar voo novamente,
para viajar e conhecer sítios nunca antes
visitados. Quando viajava assim, conseguia
chegar perto da minha mulher e conseguia
dizer-lhe as palavras que nunca lhe disse...
Alcançava tudo aquilo que imaginava e que
infelizmente nunca poderei vir a ver. Preso
ao chão passo os meus dias numa cadeira de
rodas vendo os outros pássaros levantar voo,
mas sem os poder acompanhar...
Sou livre no meu pensamento que vagueia com
eles, embora as minhas asas não acompanhem a
liberdade do meu pensamento. E pensar que já
fui livre e por causa de um acidente fiquei
assim para o resto da vida. Como me dói!
Tudo começou quando me dirigia ao hospital,
com a Mariana; preparávamo-nos para saber o
resultado das análises dela para ver se
finalmente ela estava grávida do nosso tão
desejado filho.
Chovia muito e o piso da estrada estava
escorregadio. Numa curva ao cruzar-me com um
camião travei e perdi o domínio do carro...,
e é tudo o que consigo lembrar-me!
Estive três semanas em coma e quando
finalmente despertei para a vida soube que a
minha mulher e o meu filho não tinham
resistido; ironia amarga do destino... agora
que o nosso sonho se tinha tornado possível
tudo acabou de modo irreversível ... Senti
uma vontade tremenda de ir com eles, mas
infelizmente isso não estava nas minhas mãos
e para mais tinha ficado paraplégico.
Toda uma vida desperdiçada... de repente
vi-me sozinho, sem liberdade, sem asas para
voar... Tudo aquilo que tinha construído até
ali se desmoronou num piscar de olhos. Com
desespero imaginei o quão feliz Mariana
teria ficado ao saber que o nosso sonho se
tinha concretizado e que a longa espera não
tinha sido em vão.
Restou-me a minha solidão, a única
companheira que me ficou até hoje...
Primeiro muito lentamente, mas depois, pouco
a pouco, fui aceitando a minha nova
condição. Dia a dia, um novo equilíbrio
interior foi concretizado as feridas e todo
o meu ser se entregou a um outro caminhar.
Se a minha vida não tinha terminado, eu
teria de lhe dar algum sentido.
Encontrei-o na escrita e através dela ganho
asas e voo... voo até onde o espírito me
pode levar.