Não existem crimes perfeitos.
A impressão digital fica lá sempre.
Denunciando. Perseguindo. Capturando.
Castigando.
Castigando o quê?
Tudo.
Nada.
O que nos dá força para viver. O que nos
assassina as esperanças derradeiras,
abandonando-nos na monotonia das horas, das
semanas, dos meses. Na alienação de nós
próprios. No vazio que nos preenche ao final
do dia, quando damos por nós.
Sozinhos.
Abandonados.
Escorraçados de algo que só nos foi
autorizado sentir por um momento... e que
depois nos foi arrancado, morto aniquilado.
Daquilo que ainda parece que sentimos na
boca. O seu sabor. A sua essência. Mas nas
mãos esse nada que nos consome.
Isso.
Isto.
O Tempo. O Amor.
Tudo.
Não existem crimes perfeitos. Já vos tinha
dito? Não existem. Juro.
Mas ainda nos tentam enganar. E conseguem. É
vê-los amontoados nas montras de qualquer
papelaria, de qualquer supermercado, de
qualquer biblioteca. Livros, romances para
ser exacta. São lindos! E iludem-nos tal
como se pretende. Dão-nos esperança. Dão-nos
sonhos. Fazem-nos sonhar, acordados ou a
dormir, conscientes ou inconscientes,
fazem-nos voar num mundo perfeito, onde a
felicidade é possível, onde o amor é real e
acontece. Onde não há limites que nos
prendam, nem sonhos que nunca se alcancem.
Aí. Nesse mundo. Nesse universo escrito,
lido, imaginado... Nesse universo que
transborda das páginas para a calçada, para
a rua, para a cidade... envolvendo-nos na
decepcionante nuvem de perfeição...
...Que desvanece.
Podia contar inúmeros casos.
Sonhos que comandaram a vida de um alguém,
que ansiava pela concretização desse seu
sonho. Mas que na fase final da sua vida se
apercebeu que talvez não fosse bem assim.
Talvez os sonhos só acontecem nos livros e
nos filmes, onde os finais felizes nos
enganam, prometendo-nos algo reservado só
para eles.
Mas também há o eterno caso da rapariga
tímida lá do sítio, reservada, estudiosa.
Afastada de tudo e de todos. Mas que no
final acaba sempre com o Top-Model masculino
de serviço, que a faz encontrar a
felicidade.
Perdoem-me que nunca tenha testemunhado tal
coisa.
Mas testemunho outras coisas.
Testemunho mães perderem filhos
inexplicavelmente. Sem culpa. Inocentes.
Testemunho casos de crianças que não sabiam
o que era sobremesa por nunca terem comido
uma refeição normal. Completa.
Testemunho o vazio de pessoas que eu
conheci, e que agora são apenas a concha
daquilo que foram. Por dentro vazias.
Amargamente vazias.
Por isso não me venham com Romances, com
Livros, com Filmes, com Finais Felizes.
Não me venham com Políticas, reformas,
Deputados, Assembleias, Decretos.
Devolvam-me o que é nosso.
Devolvam-me a nossa Humanidade perdida.
Devolvam-me as nossas almas, impuras e sujas
sim. Mas humanas. Quentes. Com sentimentos.
Não me tragam mais branco. Não me reduzam
mais espaço.
Devolvam-me o castanho sujo da terra, as
nódoas na nossa blusa de Domingo, os nossos
corpos imperfeitos mas cheios, repletos, a
transbordar num mar de alegrias, tristezas,
mágoas, pequenas felicidades...
Devolvam-me o Meu sonho. Não o Sonho que se
compra com o bilhete do cinema, ou com o
preço de um livro.
Devolvam-me os sonhos que tive.
Devolvam-me a inocência de quem ignora.
Devolvam-me tudo, Já!
Não existem crimes perfeitos.
Eu não quero crimes perfeitos.