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Dois dedos de monólogo

 

 
 

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No teatro, após o fim de uma peça. Já quase todos os espectadores saíram. Menos nós dois, que não nos conhecemos.

 

Está a olhar para mim? Fiz-lhe algum mal? Não me vai deixar estar aqui sentado no meu cantinho? Já sei, já sei que o espectáculo já acabou... Está com medo que me fechem aqui dentro? Pois eu não: a minha casa é mais fria que isto. Pronto está bem, não é. Mas não me apetece ir para casa e sujeitar-me à rotina diária que lá me espera...

 

Diz-me que horas são?... Ainda é tão cedo?! Não, decididamente, não quero ir para casa. Paga-me uma bebida? Não, não paga. Porquê? Só porque não me conhece? Bem, deixe cá ver nos meus bolsos, se tenho alguma coisa, que eu pago-lhe uma bebida a si. Ora, deixa cá ver... Sim, tenho aqui uns trocos. Venha, siga-me. Vamos sair desta espelunca. Mas porque é que vim ao Teatro? Já devia saber que não ia gostar! Estas tretas alternativas!... A culpa é do outro gajo, que fez aquele quadro da Marilyn Monroe que parecia uma tira de BD e aquele filme com um tipo a dormir durante não sei quantas horas seguidas. E chamam a isso arte!...

Está a olhar-me assim porquê? Pensa que eu não percebo nada de arte, é? Fique sabendo que também sou um artista. Escrevo, pinto e, se tivesse tempo, paciência e dinheiro, até podia ser realizador de cinema! Mas a arte está a morrer. E não há transplante que lhe valha, nem clonagem que a duplique. E nem vão enterrar o corpo! Ai, pois não! Enfiam-na na sanita e lá vai ela pelo cano abaixo!


II

Depois saímos do teatro. É de noite e está frio. Alguns metros à frente, vemos o nome de um café em néon.

 

Eu sabia que devia ter vestido mais um casaco. Só que sou preguiçoso por natureza. Dava-me muito trabalho voltar a trás para me agasalhar melhor, se calhar! Mas eu estou cheio de maus hábitos. Como todos! A humanidade é uma coisa abominável... Sendo nós conscientes do Mal, era suposto que o evitássemos. Contudo, Deus já esperava que o fizéssemos, ou não nos teria proibido o Fruto da Árvore do Conhecimento. Não sei qual é a sua religião e, sinceramente, nem quero saber, porque não estou com paciência para discussões de carácter teológico, no entanto o que é certo é que a mitologia cristã tem muita razão no que ao Conhecimento se refere. Só que nós, desde que provámos o seu sabor, passamos o tempo todo a correr atrás dele. No mínimo, eu diria que é ridículo!

 

Olhe, está a ver aquela placa, lá adiante? Vamos lá tomar qualquer coisa, que é um sítio agradável. Vá, venha lá, que eu já me ofereci para pagar. Está com medo de mim, ou quê? Garanto-lhe que não sou nenhum serial killer, nem coisa que se pareça. Até nem sou muito assustador... Sou de estatura média, magro, pele de uma alvura fantasmagórica... Não está a pensar que sou um vampiro, ou coisa do género, pois não? Pronto, sou um bocado assustador, se me virem aí na rua, de noite, sempre com cara de poucos amigos. Apesar de tudo não sou má pessoa. Nem sequer sou racista. Também não tenho muitos preconceitos. Tenho alguns, mas não ocupariam mais que meia dúzia de páginas, se listados. Talvez nem tanto. Seja como for, não lhe desejo mal algum. Só quero falar um bocado. E preciso de quem me ouça, claro está. Agora adivinhe só quem escolhi para tão magnifico fardo! Pois é: a si.

Se não me quer ouvir, ainda vai a tempo de desistir. Ainda assim não se esqueça que, se ficar, lhe pagarei uma bebida. Então, fica? Óptimo! Entremos, pois, neste café e permita-me divagar um pouco, que a divagação é uma arte que também já está com os pés para a cova. Entre primeiro, que se há coisa que aprendi na minha breve estadia neste sítio (ou mundo, se preferir) foi nunca ir à frente.


III
A seguir a entrarmos no café com um nome exótico e a nos sentarmos a uma mesa, fizemos os nossos pedidos. 

 

Vai mesmo beber isso? Tema certeza que não prefere outra coisa? Pronto, é lá consigo!... Bem, de que falava eu?... Oh, sim! Daquilo que aprendi na vida: nunca ir à frente. Costuma ir? A abrir o caminho aos outros? Pois. Às vezes. Eu nunca o faço. Inovar é desafiar o que sabemos e procurar saber mais. E, como referi há pouco, o conhecimento é o pai de todo o mal. Gostaria, por exemplo, de trocar tudo o que sei pela vida de um peixe, vivendo livre e ignorante. Menos um salmão. Não gostaria de ser um salmão. São demasiado parecidos com os seres humanos, não concorda? Nadam contra a corrente, apenas para chegarem a um sítio, sem nunca ponderar a possibilidade de ir para outro local, de tomar outro caminho. E, pensando saber muito, acabam por descobrir que o pouco conhecimento que têm não lhes traz vantagem alguma, pois acabam por ser quase todos apanhados por ferozes ursos que, manhosos, fazem os salmões crer que são sábios o suficiente para efectuar aquele percurso. E depois abocanham-nos, alimentando-se da sua carne, do seu sangue, dos seus sonhos. Parece-lhe familiar? Talvez porque, ao fim e ao cabo, esta é a sua história. A história da sua vida.

 

A história da vida de todos, enfim!... Mais cedo ou mais tarde, lá vem o urso de boca escancarada e dentes afiados, prontos a despedaçar tudo aquilo que somos. Que cruel se revela, então, o mundo...

 

Não acha que estou a ficar demasiado pessimista? Estou a pintar a realidade de cores muito escuras, não? Peço, então, desculpa. A si e ao bom do Louis Amstrong, que tinha toda a razão ao cantar "What a Wonderfull World". Porque o mundo é magnífico. É assim, embora muitas vezes não nos pareça. E se falo de dor e sofrimento, é porque não são menos magníficos. Não digo que sejam bons, mas têm um certo... Assim como que uma... Enorme profundidade. Os sentimentos, bons ou maus, têm sempre algo de épico, de imensamente infinito. E depois acabam. E o infinito mostra-se, afinal, com princípio e fim. E lá vem outro sentimento puramente infinito que, também ele, acabará por acabar.

 

E sabe que mais? Também achei que tinha dinheiro quase infinito, para bebermos quase infinitamente durante toda a noite. Pois... Só que o meu dinheiro conheceu o seu fim há pouco, quando o deixei cair por uma grade de esgoto. (Talvez faça companhia á arte!) por isso, parece-me que vamos ter alguns problemas para pagar a nossa despesa. Trouxe dinheiro? Graças a Deus! Pague lá...

 

Pronto, já pagou. Então, adeus!... Ah, sim! Um conselho: tenha cuidado com os ursos que por aí andam, querendo aproveitar-se de si. Estão por todo o lado. Cuidado, sim? Adeus e... Até à vista!

 
 

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No teatro, após o fim de uma peça. Já quase todos os espectadores saíram. Menos nós dois, que não nos conhecemos.

Está a olhar para mim? Fiz-lhe algum mal? Não me vai deixar estar aqui sentado no meu cantinho? Já sei, já sei que o espectáculo já acabou... Está com medo que me fechem aqui dentro? Pois eu não: a minha casa é mais fria que isto. Pronto está bem, não é. Mas não me apetece ir para casa e sujeitar-me à rotina diária que lá me espera...

 

 
     

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