Era tarde, a chuva rompia o
véu do céu, e nós lá íamos correndo no meio
daquele temporal enorme, junto ao mercado
Bamdim. Pensei para mim: "que vamos nós
fazer para esta zona?" Assaltar os
feirantes, que amedrontados das trovoadas
fogem... ou as pobres mulheres, que também
fogem deixando para trás as mangas,
mancarras, etc. O meu instinto dizia-me que
aquela iria ser uma das aventuras da minha
primavera.
Mas, quando queríamos entrar feira dentro,
logo um homem alto e forte, cuja barba
chegava ao peito, nos pôs um travão.
Queríamos entrar, mas ele, frio e sereno
ficou especado, feito pilar do pataca Bandim.
Um dos meus amigos sugeriu que déssemos uma
volta ao mercado, que do lado de lá iríamos
encontrar um buraco num dos muros, por onde
poderíamos entrar. Assim fizemos.
Quando entrei na feira, logo de seguida veio
outro amigo e mais outro, até conseguirmos
todos entrar. Estava ao lado um cacifo
semi-aberto, empurrei a porta e espreitei.
Lá dentro havia manteigas, açúcar, barras de
sabão, embalagens de cigarros, entre outros.
Mas a nossa atenção centrava-se
exclusivamente nas manteigas e no açúcar.
Roubámos, ou melhor, apoderámo-nos do que
queríamos e desatámos a correr, felizes por
termos conseguido fazer aquele saque.
De repente tudo se acalmou. A trovoada, o
vento e até a chuva já não a sentíamos. Era
um silêncio absoluto. Ninguém se mexia,
olhávamos uns para os outros e na nossa cara
ainda corriam as gotas da chuva. O silêncio
inquietáva-nos e o medo permanecia.
Aflitos, tremendo como uma vara, os nossos
corações batiam ao som da batucada.
Mirávamos o N'hu guarda, como o David olhara
o Gigante Golias. Durante a noite todos
comentavam a respeito do N'hu guarda. Alguns
confessavam o medo que tiveram quando ele
nos barrou o caminho, mas de uma coisa
comungávamos: aventura como aquela não iria
repetir-se!
Como era noite, as estrelas já não se podiam
ver e a lua também ninguém a via.
Juntámo-nos em casa de N'ha Maria Augusta.
Lá, comemos pão com manteiga acompanhado de
sumo de limão que fomos roubar ao pequeno
quintal de N'ha Amália.
Já com a barriga cheia contámos histórias.
Algumas interessavam-nos, outras nem por
isso, e a que mais despertou a atenção foi a
do mercado Bamdim. Um colega tomou a
palavra. Começou por caracterizar o homem do
mercado e disse: - Ele era tão alto como o
embondeiro, os braços eram enormes, as
pernas grossas como os troncos do bisilon.
Encostado do outro lado da parede, o Zé
sorria ironicamente e perguntou: - Por acaso
viram a cara dele? Respondemos todos que não
vimos e ele acrescentou: - Tinha a cara
deformada, tinha cicatrizes, os dentes eram
castanhos e os olhos pareciam fogo.
As nossas gargalhadas acordaram os vizinhos
de N'ha Maria Augusta. De seguida
despedimo-nos, cada qual foi para sua casa
deitar-se. O dia seguinte traria novas
aventuras, pois a infância define-se como a
idade do riso, das estórias, e uma das suas
características é, sem dúvida, a aventura e
essa nunca há-de faltar.