Chove que Deus a manda.
Troveja, relampadeja, parece que Deus ou a
Terra se revolta contra o domínio do Homem.
O Homem, o ente Todo Poderoso, sentado no
Altar Mor do Reino das Coisas, no Trono
Magno das Igrejas, intimidado pelas altas
esferas do poder meteorológico a baixar a
cabeça enquanto os vermes lancham na
intimidade da sua bestialidade com a
coerência natural das coisas.
O limpa vidros atarefado afoga-se e não
parece dar conta da tarefa. Mas vejo os
buracos da estrada habitual que me sacodem o
veículo fragilizado pelos anos. Os faróis
vêm menos do que eu, impotentes frente à
espessa parede da tempestade. Não estou
longe de casa, falta pouco, muito pouco,
seria tremendamente irónico ter um acidente
neste momento. Estão à minha espera em casa,
na verdade devem estar preocupados.
Realmente, que estúpida teimosia em resistir
à evidência. Se tivesse um telemóvel seria
extremamente fácil, não se compreende esta
relutância, esta petulância, esta falta de
senso.
Por essas estradas esburacadas, com esta
chuva, com este vento do Apocalipse, e sem
meios de nos dizer estou bem ou estou a
chegar. Dez horas e sem chegar. Mantém-se o
jovem pueril do liceu. Não me admirava
minimamente que tivesse decidido ir ao
cinema depois das aulas.
Dez horas e sem chegar. Algum café, alguma
saia, alguma algazarra, alguma RGA, alguma
discussão filosófica e a culpa é tua. Deixe
lá o rapaz divertir-se, é o que dá. Culpa
tua, minha querida, e das tuas lamechices.
Metes-lhe areia a mais na camioneta, é o que
é. E se eu digo alguma coisa, que a avó
merece desconto. Sinceramente não percebo
porque estás agora tão preocupada. Sim,
porque não vejo onde está o problema. Passa
um pouco das dez horas, nada fora do
ordinário, aliás, raro é o dia em que ele
não chegue depois das onze. Que mal pode
fazer uma tertúlia a um jovem espírito ávido
de logos, de confronto, de debate e disputa
pela verdade. Na vida tudo se resume a
disputas, eles têm de compreender isso, não
me podem criticar, ou pelo menos, não sem se
submeterem à evidência de que eu tenho
razão. É certo que chove, mas até que ponto
é que uma chuvada mais embrutecida deve ser
tolerada como condicionante à actividade
intelectual profícua que contribuirá
positivamente para o meu posicionamento
futuro na sociedade a que pretendo.
Pretender obter um estatuto dentro de
determinado espaço social é uma aspiração
completamente louvável numa consciência de
dezoito anos embasbacada pela filosofia
sartriana. É antes de mais uma tomada de
posição autodidacta. É uma revelação
existencial. É confessar eu não sou nada,
mas aqui estou para ser quanto puder. Sim,
mas com este tempo deveria ser mais
solidário com os seus pais. Ceder aos
aspectos mais mesquinhos da vida não é
também testemunhado pelo teu Sartre? Não,
não é. É algo de completamente diferente.
Não se trata de cedência, querida, trata-se
de compreender que um homem real só existe
na medida em que não se limita a ser uma
racionalidade virada para altos problemas
filosóficos, mas que é simultaneamente um
animal.
A personagem sartriana é composta pelas
várias necessidades reais de qualquer
indivíduo real. Não é possível conceber o
homem do mundo sem perceber que nele
participam todas as qualidades e todos os
defeitos. Supor um jovem que não tenha as
suas querelas com as gerações mais velhas é
desfasado. Um jovem em concordância completa
com os pais é um jovem apático e entumecido
que não virá contribuir em nada para a Razão
Universal.
É isto que lhes vou dizer quando chegar a
casa. Irritem-se comigo, é o melhor que me
podem fazer pois fazem-me acreditar que
poderei ser útil ao Universo. Só a
irreverência é útil, o resto é modorra
despicienda. Pois, por essas e por outras é
que ele não vos liga nenhuma. Estão a criar
uma criatura alienada da inteligência
social. Não saberá criar sinergias, será
contraproducente. Ora, são exactamente as
energias contraproducentes que enformam as
novas realidades, permitindo assim o
movimento progressista histórico. Um espaço
histórico sem energias contraproducentes,
onde apenas existe uma sinergia sintética, é
uma sociedade morta sem qualquer perspectiva
de desenvolvimento.
Eu proponho que se tire o jantar e que se
coma. Estou com fome. Já devem estar a
comer. Provavelmente nem pensaram no meu
atraso. Bem, a falar verdade, ainda não
estou atrasado. Mas que tenho fome, isso é
evidente, por isso comemos e ele quando
chegar comerá sozinho, com a idade dele, não
terá medo. Olha para a janela, está tudo tão
escuro. São vidros foscos - está morto? Sim,
está morto. Chove que Deus a manda.