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Luís Filipe Mendes Fernandes

Substracto

 

 
 

  semente

06-03-2009 17:05

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Chove que Deus a manda. Troveja, relampadeja, parece que Deus ou a Terra se revolta contra o domínio do Homem. O Homem, o ente Todo Poderoso, sentado no Altar Mor do Reino das Coisas, no Trono Magno das Igrejas, intimidado pelas altas esferas do poder meteorológico a baixar a cabeça enquanto os vermes lancham na intimidade da sua bestialidade com a coerência natural das coisas.


O limpa vidros atarefado afoga-se e não parece dar conta da tarefa. Mas vejo os buracos da estrada habitual que me sacodem o veículo fragilizado pelos anos. Os faróis vêm menos do que eu, impotentes frente à espessa parede da tempestade. Não estou longe de casa, falta pouco, muito pouco, seria tremendamente irónico ter um acidente neste momento. Estão à minha espera em casa, na verdade devem estar preocupados. Realmente, que estúpida teimosia em resistir à evidência. Se tivesse um telemóvel seria extremamente fácil, não se compreende esta relutância, esta petulância, esta falta de senso.


Por essas estradas esburacadas, com esta chuva, com este vento do Apocalipse, e sem meios de nos dizer estou bem ou estou a chegar. Dez horas e sem chegar. Mantém-se o jovem pueril do liceu. Não me admirava minimamente que tivesse decidido ir ao cinema depois das aulas.


Dez horas e sem chegar. Algum café, alguma saia, alguma algazarra, alguma RGA, alguma discussão filosófica e a culpa é tua. Deixe lá o rapaz divertir-se, é o que dá. Culpa tua, minha querida, e das tuas lamechices. Metes-lhe areia a mais na camioneta, é o que é. E se eu digo alguma coisa, que a avó merece desconto. Sinceramente não percebo porque estás agora tão preocupada. Sim, porque não vejo onde está o problema. Passa um pouco das dez horas, nada fora do ordinário, aliás, raro é o dia em que ele não chegue depois das onze. Que mal pode fazer uma tertúlia a um jovem espírito ávido de logos, de confronto, de debate e disputa pela verdade. Na vida tudo se resume a disputas, eles têm de compreender isso, não me podem criticar, ou pelo menos, não sem se submeterem à evidência de que eu tenho razão. É certo que chove, mas até que ponto é que uma chuvada mais embrutecida deve ser tolerada como condicionante à actividade intelectual profícua que contribuirá positivamente para o meu posicionamento futuro na sociedade a que pretendo. Pretender obter um estatuto dentro de determinado espaço social é uma aspiração completamente louvável numa consciência de dezoito anos embasbacada pela filosofia sartriana. É antes de mais uma tomada de posição autodidacta. É uma revelação existencial. É confessar eu não sou nada, mas aqui estou para ser quanto puder. Sim, mas com este tempo deveria ser mais solidário com os seus pais. Ceder aos aspectos mais mesquinhos da vida não é também testemunhado pelo teu Sartre? Não, não é. É algo de completamente diferente. Não se trata de cedência, querida, trata-se de compreender que um homem real só existe na medida em que não se limita a ser uma racionalidade virada para altos problemas filosóficos, mas que é simultaneamente um animal.
A personagem sartriana é composta pelas várias necessidades reais de qualquer indivíduo real. Não é possível conceber o homem do mundo sem perceber que nele participam todas as qualidades e todos os defeitos. Supor um jovem que não tenha as suas querelas com as gerações mais velhas é desfasado. Um jovem em concordância completa com os pais é um jovem apático e entumecido que não virá contribuir em nada para a Razão Universal.


É isto que lhes vou dizer quando chegar a casa. Irritem-se comigo, é o melhor que me podem fazer pois fazem-me acreditar que poderei ser útil ao Universo. Só a irreverência é útil, o resto é modorra despicienda. Pois, por essas e por outras é que ele não vos liga nenhuma. Estão a criar uma criatura alienada da inteligência social. Não saberá criar sinergias, será contraproducente. Ora, são exactamente as energias contraproducentes que enformam as novas realidades, permitindo assim o movimento progressista histórico. Um espaço histórico sem energias contraproducentes, onde apenas existe uma sinergia sintética, é uma sociedade morta sem qualquer perspectiva de desenvolvimento.


Eu proponho que se tire o jantar e que se coma. Estou com fome. Já devem estar a comer. Provavelmente nem pensaram no meu atraso. Bem, a falar verdade, ainda não estou atrasado. Mas que tenho fome, isso é evidente, por isso comemos e ele quando chegar comerá sozinho, com a idade dele, não terá medo. Olha para a janela, está tudo tão escuro. São vidros foscos - está morto? Sim, está morto. Chove que Deus a manda.

 
 

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Por essas estradas esburacadas, com esta chuva, com este vento do Apocalipse, e sem meios de nos dizer estou bem ou estou a chegar. Dez horas e sem chegar. Mantém-se o jovem pueril do liceu. Não me admirava minimamente que tivesse decidido ir ao cinema depois das aulas.

 

 
     

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