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Professora Graciosa Gonçalves

O árduo trabalho da criação literária ou a negação da " lei do menor esforço"

 

 
 

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Independentemente das especificidades do estilo de cada escritor, há em termos gerais uma tendência para a conciliação harmoniosa entre o “génio” e o trabalho, da qual resultam belos textos para deleite do leitor.


É muito frequente, nas aulas de Português, principalmente a propósito da análise retórico-estilística de um qualquer texto da autoria de conceituadíssimos escritores (e. g. Luís de Camões, Fernando Pessoa, Cesário Verde, Eugénio de Andrade e Miguel Torga), surgir a polémica questão: escreviam com rasgos de puro génio ou eram verdadeiros artesãos da palavra?


Nestas circunstâncias é meu hábito confrontar os alunos com argumentos dos próprios autores não só recorrendo aos seus textos sobre a matéria, mas também referindo factos da vida dos mesmos que podem lançar alguma luz sobre o assunto.


Por conseguinte, a conclusão mais ou menos consensual a que essas conversas nos levam é que, independentemente das especificidades do estilo de cada escritor, há em termos gerais uma tendência para a conciliação harmoniosa entre o “génio” e o trabalho, da qual resultam belos textos para deleite do leitor. Se à vista desarmada parece que a questão tem aqui o seu ponto final, o facto é que nunca desperdiço a oportunidade de encaminhar os alunos para um ensino mais pragmático, ou seja, de útil aplicação ao seu dia-a-dia, tanto ao nível escolar como ao nível pessoal. Isto é, colocando-os perante os testemunhos escritos que atestam o valor do trabalho na esfera da criação literária, pretendo provar-lhes que, sem esforço, nem o maior dos génios consegue singrar e que, portanto, a vulgarmente chamada “lei do menor esforço” deve converter-se na “lei do trabalho árduo”. Curiosamente, o impacto destes textos é assinalável e para isso contribui em grande parte o “factor surpresa” (“Não imaginava que Fernando Pessoa demorasse tanto tempo para escrever um livro.” / “Torga precisava de reescrever versos dos seus poemas?” - são comentários comuns).


Milagres à parte (pois cada vez é mais penoso produzi-los em situação escolar), a verdade é que certos textos lidos na altura apropriada (muitas vezes em fases de grande desorientação vocacional) obrigam os alunos a reflectir sobre si mesmos e, acima de tudo, a compreender a profunda humanidade dos grandes vultos da nossa literatura.


Assim sendo, aqui ficam as palavras dos Mestres relativamente à forma de desempenhar o seu ofício, bem como o meu humilde desejo de que elas se revelem úteis para quem as ler.


“(...) As cousas árduas e lustrosas
Se alcançam com trabalho e com fadiga;
Faz as pessoas altas e famosas
A vida que se perde e que periga,
(...)” in Os Lusíadas, canto IV, est.18 (Luís de Camões)
“(...) Só aquilo que vale a pena custa e dói. Bendita a dor e a pena pelas quais o Mundo se transforma.”

in Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, (Fernando Pessoa)

 
 

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É muito frequente, nas aulas de Português, principalmente a propósito da análise retórico-estilística de um qualquer texto da autoria de conceituadíssimos escritores (e. g. Luís de Camões, Fernando Pessoa, Cesário Verde, Eugénio de Andrade e Miguel Torga), surgir a polémica questão: escreviam com rasgos de puro génio ou eram verdadeiros artesãos da palavra?

 

 
     

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