Após a descoberta da crua realidade "sob o
manto diáfano da fantasia" literária, um
grupo de alunos, auto-intitulado "Os
Vencedores da Vida", decidiu provar a
intemporalidade do discurso de Eça de
Queirós, pondo a nu a perenidade de alguns
retratos humanos que o autor ironicamente
traçou no século XIX e que encontram eco na
actualidade.
Condessa de Gouvarinho / Cinha Jardim
No constante mariposeio entre festas e
comemorações, jantares de beneficência e
inaugurações, saraus e corridas, bailes e, é
claro, o escândalo que também faz parte da
sua profissão, as suas fartas cabeleiras e
as suas formas esculturais atraem as
atenções e os olhares cúpidos e/ou críticos
do mundo do "jet set". Parecer bem é o seu
lema. Avessas a grosserias (Olha o nível!…),
nunca chegam a ser «ridícula(s), reles,
estúpida(s)», apesar do que dizem as más
línguas. Também não hesitam em manifestar o
descontentamento de forma vigorosa e
peculiar (um dia, a condessa, agastada com a
avareza do marido, «agarrou do copo e do
prato, e esmigalhou-os no chão»), nem em
desvendar segredos de beleza, ao aspergir o
corpo bem feito com um excesso de perfume
adocicado de verbena ou ao empastar o rosto
com uma espessa camada de máscara facial,
dando aso Bárbara Guimarães.
Dâmaso de Salcede / Alberto João Jardim
Semelhantes na verve «interminável,
torrencial, inundante», diferem, no entanto,
na frontalidade com que encaram a vida e na
divergência de opiniões. Já nos habituámos
às "boutades" provocatórias de Alberto João
Jardim cuja língua, afiada e sempre em
riste, investe sem tergiversações contra o
que considera incorrecto. Ao invés, a
pusilanimidade invertebrada de Dâmaso de
Salcede torna-o gelatinoso aos olhos de
todos.
Para além da proeminência do ventre e de um
indiscutível alastrar da calvície, possuem
duas outras características em comum: um
evidente bairrismo e o gosto notório por um
certo exibicionismo carnavalesco. Se Alberto
João Jardim defende acerrimamente o seu
feudo madeirense, o nacionalismo cego de
Dâmaso impede-o de ver que «o sopro
grosseiro de discórdia reles» desmanchava «a
linha postiça de civilização e a atitude
forçada de decoro» que reinava no hipódromo
de Lisboa, o «mais bonito» do mundo, como
«não há lá fora». E enquanto Dâmaso se
propõe irromper no baile de máscaras dos
Cohen disfarçado de selvagem, Alberto João
Jardim faz gala em ostentar, pelas ruas
animadas do Funchal, os cintilantes e
coloridos fatos de Rei Momo. «Chique a
valer!».
Palma Cavalão, Neves e Companhia
Eles representam o jornalismo barato,
escandaloso, bombástico, sem escrúpulos e
sem princípios. Servem-se do seu poder
mediático para influenciar politicamente os
leitores ignorantes ou para desviar
valiosíssimas peças de museus iraquianos,
alegando não serem mais do que meros troféus
de guerra. Revelam baixeza de carácter, ao
aproveitarem-se da sua profissão para fazer
tudo menos jornalismo isento e
desinteressado. Felizmente, não são a
generalidade. Veja-se "A Semente"...