Ninguém é incapaz para estudar, assim como
ninguém é incapaz para trabalhar. Temos é
ritmos diferentes de acção e capacidades
distintas, que em nada alteram a
produtividade. O segredo do aproveitamento
reside somente no tempo aplicado.
Recentemente, quando esperava o autocarro
para o Porto, surpreendeu-me um diálogo
entre duas senhoras relativamente aos seus
filhos, alunos do ensino secundário. Sei que
não é correcto escutar conversas alheias,
porém era impossível não o fazer dado o tom
de voz de ambas.
Uma delas lamentava-se perante a outra de
que os professores da escola que o seu filho
frequentava lhe tinham comunicado a
incapacidade do aluno prosseguir estudos
superiores. As razões invocadas eram a
distracção frequente nas aulas, a ausência
de um estudo rigoroso e, por fim, a falta de
capacidades intelectuais.
Comoveu-me tal comentário. Não quero
estabelecer um juízo de valor sobre a
veracidade da história, mas centrar-me
apenas na análise do preconceito que lhe
está subjacente.
Durante muitos anos, o ensino foi
administrado exclusivamente àqueles que
demonstravam resultados efectivos. Os
restantes eram excluídos sob a perspectiva
de que seriam mais úteis na realização de
trabalhos não intelectuais. Tal argumentação
prevaleceu historicamente num período
indeterminado até ao advento das democracias
contemporâneas e a universalização do
direito à educação. E ainda hoje subsistem
resquícios desta mentalidade obsoleta. É
comum alguns pais e educadores reagirem ao
insucesso escolar dos filhos com frases do
género:” Sabe... ele tem mais jeito para
trabalhar do que para estudar...”
Ora, este é um preconceito incorrecto. Só
será um bom trabalhador aquele que possui
ordem, diligência, espírito de iniciativa
pessoal e capacidade de resolução de
problemas. Quem negará, pois, a presença do
intelecto no trabalho? Pode porventura
alguém intelectualmente deficitário
exercitar um trabalho perfeito? É evidente
que não, visto que a sua acção se limitaria
a meros actos adestrados e mecanizados.
Assim, quem é suficientemente competente
para exercitar um trabalho, é também capaz
de prosseguir os estudos com resultados
igualmente satisfatórios. Agora, pode
existir um problema de motivação e isso é
uma diferente questão. Tal hipótese exige um
tratamento mais delicado e um esforço maior
na investigação dos motivos que impedem que
o aluno seja empenhado, atento e metódico no
seu estudo.
É verdade que todos temos capacidades
intelectuais diversas. Porém, nada impede o
sucesso escolar. Se o aluno não memoriza
facilmente numa hora, pode recorrer a mais
horas de estudo. Se não compreende a matéria
pode procurar investigar pessoalmente a
dúvida mediante os meios ao seu dispor.
Logo, se ele não o faz não é por não ter
capacidade, mas por falta de motivação. O
problema não é a inteligência, mas talvez o
ambiente familiar, o contexto sociocultural,
a qualidade do ensino ministrado ou a
postura pessoal.
Atrever-me-ia mesmo a dizer que, embora nem
todos tenhamos o mesmo grau de inteligência,
temos certamente todos a mesma possibilidade
de ser bem sucedidos.
Reconheço mesmo no meu caso pessoal que,
embora desprovido de rasgos de génio e de
uma memória formidável, sempre consegui
lograr bons resultados graças a um trabalho
empenhado. Provavelmente neste domínio
ultrapassei muitos colegas com capacidades
intelectuais superiores que, em virtude da
ausência de um estudo empenhado, obtiveram
resultados medíocres.
A chave do sucesso escolar não é pois um
nível elevado de inteligência ou uma memória
formidável, mas uma força de vontade sólida
que promove um estudo sério e rigoroso. Com
determinação, organização e muitas horas de
estudo tudo se consegue.
Ninguém é incapaz para estudar, assim como
ninguém é incapaz para trabalhar. Temos é
ritmos diferentes de acção e capacidades
distintas, que em nada alteram a
produtividade. O segredo do aproveitamento
reside somente no tempo aplicado. É evidente
que um aluno com menores aptidões para a
compreensão e para a memorização necessita
de mais horas de estudo. Todavia, nada
impede que um aluno com menores capacidades
mas com um maior tempo de estudo supere
outro colega, certamente abençoado com uma
melhor memória e com uma maior facilidade na
compreensão das matérias.