“Feliz de quem encontrou a sabedoria, de
quem adquiriu inteligência. Porque vale mais
este lucro que o da prata, e o fruto que se
obtém é melhor que o ouro fino. Ela é mais
preciosa do que as pérolas: jóia alguma a
pode igualar.” In Bíblia Prov 3, 13-15
Um destes dias, ao regar as plantas observei
que, num dos vasos uma delas tinha definhado
completamente: restavam dois caules
castanhos e secos. Mas, qual não foi a minha
surpresa, ao perceber que vários rebentos
ainda tenros, porém cheios de vigor,
teimavam em romper a terra, alegremente,
junto dos “pais” mirrados.
Aquela imagem do pai que se apaga, que se
aniquila para dar vida ao filho foi
passando, repetidamente, no ecrã da minha
consciência e conduziu-me a uma reflexão
sobre a minha conduta como mãe. A essa
imagem associou-se um cacho de questões:
como encaram os pais esta lição da natureza?
Qual é o sentido de paternidade que
prevalece? O espírito de sacrifício e de
entrega (principalmente de tempo) ou o
interesse individualista/materialista de
quem se preocupa exclusivamente com o êxito
profissional? Salvaguardando razões muito
fortes e válidas como, por exemplo, os tão
apregoados índices de competitividade e o
monstro do desemprego, que tempo é que os
pais dedicam para brincar e conversar com os
filhos? Por que é que os pais tentam
“comprar” o afecto dos filhos à custa da
satisfação de todos os seus pedidos de ordem
material?
Frequentemente, ao olharmos para as grandes
civilizações do passado, conseguimos
descobrir, não só erros e crueldades, mas
também e, acima de tudo, exemplos de
verdadeiras pérolas pedagógicas.
É o caso do notável cuidado e carinho com
que as mães romanas educavam os seus filhos.
De entre elas destaca-se a figura de
Cornélia, filha de Capitão, o Africano. O
seu marido, Sempronius Gracchus, ocupava na
hierarquia política um papel importante e
difícil: era o defensor dos pobres e dos
fracos. Depois da morte do esposo, a viúva
encorajou os filhos a defenderem a mesma
causa. Ao longo de sucessivas gerações o
povo romano conservou, piedosamente, a
lembrança daquela que, perante uma amiga
rica, ostensivamente exibindo belas jóias,
respondeu com dignidade, apontando para os
seus filhos ainda crianças: “Eis aqui as
minhas jóias.”
Há que ter a coragem e a nobreza de carácter
para resistir às pressões do egoísmo
materialista e continuar ou, porventura, (re)começar
a olhar para os filhos como sendo o que,
realmente, devem ser para os pais - as suas
jóias.