Almada Negreiros, destacado
artista plástico e escritor do Primeiro
Modernismo Português, publicou, na segunda
década do século XX, o célebre “Manifesto
Anti-Dantas”, irreverente e cáustico libelo
contra o então representante do academismo
literário e também contra um país que se
deixava representar por uma figura
considerada ultrapassada. Foi esse texto que
inspirou este “Manifesto Anti-Amor.
O amor é a pior coisa que existe hoje em
dia.
O amor faz-me mal, põe-me doente.
O amor faz-nos revoltar, faz-nos odiar.
O amor é a meta que todos queremos alcançar,
aquele estado pleno a que todos aspiram.
Porém, esse amor faz-nos as maiores maldades
possíveis e imaginárias. Julieta é prova
disso.
O amor mata.
O amor descontrola-nos.
O amor controla-nos.
O amor trata-nos como marionetas, leva-nos à
maior loucura, põe-nos insanos.
Que seja Tróia a minha maior testemunha. Aí,
o amor alimentou a guerra. Matou vários
inocentes por um único motivo: o amor.
O amor é meloso. Poucos sabem o quanto eu
odeio mel.
Quem ama torna-se irracional.
Todos os grandes poetas são poetas, porque o
amor os fez sofrer.
Abaixo o amor! Abaixo a irracionalidade!
Mantenham-se sóbrios!
Depois de um grande amor, vem sempre uma
ressaca com o nome de desilusão. Se acham
que uma ressaca de álcool é difícil, não
queiram imaginar uma ressaca de amor.
O amor dá-nos suores, o amor dá-nos
calafrios, o amor põe o coração a bater a
mil à hora e adrenalina ao máximo.
O amor é um jogo difícil de jogar, onde
muito poucos ganham e muitos outros morrem.
O amor revolta-me, enoja-me, dá-me volta ao
estômago.
O amor é o único mal que afecta toda a
humanidade.
O amor é pior que Bush.
O amor é a prova de milhares de anos de
histórias de loucos.
O amor traz o ódio. Ambos andam de mãos
dadas. Não podemos amar uma pessoa sem odiar
outra.
O amor leva à perdição.
O amor leva à traição.
O amor dá-nos a estranha sensação de voar.
Mas quanto mais alto é o voo, maior a queda.
O amor faz de nós tapetes que outros se
divertem a pisar.
O amor não é cego. O amor faz de nós cegos.
O amor dá-nos a falsa sensação de liberdade
e de felicidade.
Mas o que mais odeio no amor, o que me
revolta mesmo, é não conseguir deixar de
amar.