Nos últimos tempos, enquanto
observava na televisão e lia nos jornais as
notícias sobre a Guiné-Bissau, recordei-me
da minha estadia naquele belo país da África
Ocidental durante o mês de Agosto deste ano.
Foi com espanto e surpresa que segui todo o
desenrolar das suspeições sobre Tagmé e do
assassinato do general Veríssimo Seabra
durante o mês de Outubro. Os nossos
jornalistas tenderam, por vezes, a
apresentar o caso com algumas verdades
adquiridas, pressupondo disputas étnicas ou
intrigas políticas. Para ser sincero, não
sei se isso corresponderá à realidade. E se
o for, não pode ser um facto apresentado sob
o prisma redutor de uma nação politicamente
instável, com conflitos político-militares
permanentes...
Da minha passagem por Bissau, Cumura e
Quinhamel não retive uma ideia negativa. Os
meus olhos fixaram o rosto de imensas
pessoas, que nos acolhiam com um imenso
carinho. Homens e mulheres que trabalhavam
arduamente no cultivo de arroz, milho e
mancara; jovens e crianças inteligentes,
sedentos de aprender e alegres no brincar.
Recordo-me em especial de algumas crianças
da leprosaria de Cumura, que traziam um dos
poucos livros que existiam na escola para eu
ler com eles em português. E permanece-me
ainda viva na memória aquele jogo de futebol
com uma lata, diante da igreja daquela
terra, que tive a oportunidade de partilhar
com os adolescentes.
Quanto a rivalidades étnicas, nunca me dei
conta da sua existência. Senti a
hospitalidade de balantas, felupes, pepéis,
bijagós... De como me recebiam nos pátios
das suas casas, trazendo a sua melhor
cadeira, e dos longos diálogos que
partilhámos debaixo das mangueiras. E, com
emoção, guardo aquele gesto de um jovem
balanta - com as mãos bem calejadas pelo
trabalho agrícola - que me convidou a entrar
e a visitar a sua casa. Senti nesse momento
que me tratava como irmão. Também conservo
no meu coração as palavras de um jovem
felupe que me escreveu recentemente numa
carta: "Você me pegou kamaradia e eu também,
mas o máximo, eu te considero o meu melhor
irmão até aos confins do mundo". Tal frase é
o inequívoco selar de um pacto de amizade.
Poderia ilustrar com outros inúmeros
episódios manifestamente positivos, que
expressam a grandeza daquele povo, pobre a
nível de recursos materiais, mas rico em
valores como a amizade, a hospitalidade e a
fraternidade. E talvez seja essa pobreza no
domínio económico a principal motivação para
a emergência destes problemas sociais e
políticos. Quem não recorda as palavras do
primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, que
considerou a sublevação como um "incidente
que não deve levar a comunidade
internacional a penalizar a Guiné-Bissau"? É
por demais evidente, que tal frase constitui
um apelo para que a Europa não tema
continuar a investir financeiramente neste
país. Seria bom, que despertasse em nós o
mesmo espírito que nos moveu há uns anos
atrás a lutar pela auto-determinação do povo
de Timor Lorosae e nos empenhássemos agora
pela melhoria das condições de vida do povo
guineense. É um povo com enormes
potencialidades, com uma extraordinária
riqueza cultural e elevados valores morais.
Talvez caminhando, lado a lado, como irmãos,
pudéssemos aprender com eles o verdadeiro
sentido da fraternidade que se estende para
lá dos laços biológicos, da alegria de ser
(sem nada ter), do receber dando o melhor
que se possui...