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Professor Marco Casquilho

Um outro olhar sobre a Guiné

 

 
 

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Nos últimos tempos, enquanto observava na televisão e lia nos jornais as notícias sobre a Guiné-Bissau, recordei-me da minha estadia naquele belo país da África Ocidental durante o mês de Agosto deste ano.


Foi com espanto e surpresa que segui todo o desenrolar das suspeições sobre Tagmé e do assassinato do general Veríssimo Seabra durante o mês de Outubro. Os nossos jornalistas tenderam, por vezes, a apresentar o caso com algumas verdades adquiridas, pressupondo disputas étnicas ou intrigas políticas. Para ser sincero, não sei se isso corresponderá à realidade. E se o for, não pode ser um facto apresentado sob o prisma redutor de uma nação politicamente instável, com conflitos político-militares permanentes...


Da minha passagem por Bissau, Cumura e Quinhamel não retive uma ideia negativa. Os meus olhos fixaram o rosto de imensas pessoas, que nos acolhiam com um imenso carinho. Homens e mulheres que trabalhavam arduamente no cultivo de arroz, milho e mancara; jovens e crianças inteligentes, sedentos de aprender e alegres no brincar. Recordo-me em especial de algumas crianças da leprosaria de Cumura, que traziam um dos poucos livros que existiam na escola para eu ler com eles em português. E permanece-me ainda viva na memória aquele jogo de futebol com uma lata, diante da igreja daquela terra, que tive a oportunidade de partilhar com os adolescentes.


Quanto a rivalidades étnicas, nunca me dei conta da sua existência. Senti a hospitalidade de balantas, felupes, pepéis, bijagós... De como me recebiam nos pátios das suas casas, trazendo a sua melhor cadeira, e dos longos diálogos que partilhámos debaixo das mangueiras. E, com emoção, guardo aquele gesto de um jovem balanta - com as mãos bem calejadas pelo trabalho agrícola - que me convidou a entrar e a visitar a sua casa. Senti nesse momento que me tratava como irmão. Também conservo no meu coração as palavras de um jovem felupe que me escreveu recentemente numa carta: "Você me pegou kamaradia e eu também, mas o máximo, eu te considero o meu melhor irmão até aos confins do mundo". Tal frase é o inequívoco selar de um pacto de amizade. Poderia ilustrar com outros inúmeros episódios manifestamente positivos, que expressam a grandeza daquele povo, pobre a nível de recursos materiais, mas rico em valores como a amizade, a hospitalidade e a fraternidade. E talvez seja essa pobreza no domínio económico a principal motivação para a emergência destes problemas sociais e políticos. Quem não recorda as palavras do primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, que considerou a sublevação como um "incidente que não deve levar a comunidade internacional a penalizar a Guiné-Bissau"? É por demais evidente, que tal frase constitui um apelo para que a Europa não tema continuar a investir financeiramente neste país. Seria bom, que despertasse em nós o mesmo espírito que nos moveu há uns anos atrás a lutar pela auto-determinação do povo de Timor Lorosae e nos empenhássemos agora pela melhoria das condições de vida do povo guineense. É um povo com enormes potencialidades, com uma extraordinária riqueza cultural e elevados valores morais. Talvez caminhando, lado a lado, como irmãos, pudéssemos aprender com eles o verdadeiro sentido da fraternidade que se estende para lá dos laços biológicos, da alegria de ser (sem nada ter), do receber dando o melhor que se possui... 

 
 

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Os meus olhos fixaram o rosto de imensas pessoas, que nos acolhiam com um imenso carinho. Homens e mulheres que trabalhavam arduamente no cultivo de arroz, milho e mancara; jovens e crianças inteligentes, sedentos de aprender e alegres no brincar. Recordo-me em especial de algumas crianças da leprosaria de Cumura, que traziam um dos poucos livros que existiam na escola para eu ler com eles em português. E permanece-me ainda viva na memória aquele jogo de futebol com uma lata, diante da igreja daquela terra, que tive a oportunidade de partilhar com os adolescentes.

 

     

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