Em cada povo, em cada cultura,
existem variadas formas de expressar o valor
universal da amizade. Este artigo é o
resultado da colaboração entre um angolano e
um português. Nele tentamos salientar as
principais diferenças e pontos de encontro
na vivência de um mesmo sentimento.
A amizade para os angolanos crescia nos
mesmos meios sociais, de tal modo que eram
grandes amigos àqueles que praticavam as
mesmas actividades, pessoas da mesma tribo
ou ainda do mesmo clã. No presente, o
círculo de amizade tornou-se mais
abrangente: pessoas com profissões
distintas, tribos e clãs diferentes,
unem-se, a fim de rebuscarem as riquezas que
cada um pode oferecer, para edificar com
mais fertilidade a amizade ou ainda pela
permuta de conhecimentos dos diversos
ofícios.
O angolano doa-se, e esta doação faz
estreitar cada vez mais os laços cordiais de
amizade, que podem ter começado numa festa,
num salão, numa reunião, num funeral ou em
qualquer lugar onde as pessoas encontram-se
para partilharem ideias, sentimentos…Para os
angolanos a amizade gera-se pelo agrado que
a presença do outro proporciona: a maneira
de falar, de agir, de estar, ou seja, o
“modus essendi” o modo de ser.
A amizade para os portugueses assenta num
processo gradual, que se gera pela afinidade
de gostos e ocupações ou pela diferença que
completa ou pura e simplesmente pelo
interesse social, económico e político.
O português facilmente inicia um diálogo com
um desconhecido. É habitualmente informal e
sem dificuldade comunica com os outros. A
amizade acontece após um processo de mútuo
conhecimento. Não existe propriamente um
momento determinado que garanta a solidez da
relação. Simplesmente habituamo-nos a
partilhar a vida e os problemas.
Em Angola o maior e melhor amigo, é aquele
que não está presente apenas em momentos de
alegria e abundância, mas também em momentos
de tristeza e penúria. “Se queres saber
quantos amigos tens dá uma festa, mas só
saberás a qualidade de amigos que tens se
tiveres na cadeia ou hospitalizado”.
Entretanto, várias são as formas de
comunicação entre os amigos, dentre elas
podemos destacar o assobio – sinal de alerta
que congrega os amigos num determinado lugar
–; as trocas de olhar, a gíria, ou outros
sinais que apenas o grupo de amigos conhece.
Em Portugal uma amizade cresce com o tempo.
Não se gera instantaneamente. Habitualmente
existem uma série de actividades que se
desenvolvem em conjunto: entre as crianças,
o jogo; entre os jovens, a ida ao cinema, a
um concerto, a um bar ou discoteca; entre os
homens, o beber uns copos, a participação
num desafio de futebol; entre as mulheres, a
partilha dos problemas e o diálogo mais
intimista; entre os mais velhos a memória do
passado e a habitual enumeração dos
problemas de saúde de cada um. Uma das
regras fundamentais da amizade é a separação
entre o compromisso social e o apoio
económico. “Amigos, amigos, negócios à
parte”.
A recepção de um amigo para os angolanos é
motivo de júbilo, por vezes o tempo é
insuficiente para partilharem tanta alegria.
Os mais velhos ao receberem os seus
contemporâneos, recordam as memórias do
passado, os momentos alegres e difíceis que
passaram juntos; entre os jovens, a partilha
de diversos temas. Porém, enquanto vão
recordando os tempos idos “mais velhos” ou
reflectindo temas “jovens” prepara-se um
almoço, lanche ou jantar de carácter
festivo, e o lugar mais cómodo que haver em
casa para acolher o amigo.
O gesto mais comum entre amigos portugueses
manifesta-se no hábito de convidar para um
café. Quando se recebe em casa não existem
propriamente normas definidas, senão a de
receber com hospitalidade. A forma de
acolhimento é diversa de região para região.
Não obstante, um número significativo de
pessoas quando recebe uma visita de amigos e
não dispõe de outros quartos cede
generosamente o seu. Além disso, nas terras
onde se convida para uma refeição,
especialmente as donas de casa costumam
insistir, por vezes até em demasia, para que
o conviva coma e se sinta à vontade.
A amizade, independentemente das suas
manifestações culturais, é sempre amizade.
Amigos, em Portugal, kambas, em Angola. O
sentimento é transversal a todas as
culturas, pois rompe todos os preconceitos e
diferenças étnicas e sociais.