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Marco Casquilho e Aguinaldo Miguel

Amigos, em Portugal; Kambas, em Angola

 

 
 

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Em cada povo, em cada cultura, existem variadas formas de expressar o valor universal da amizade. Este artigo é o resultado da colaboração entre um angolano e um português. Nele tentamos salientar as principais diferenças e pontos de encontro na vivência de um mesmo sentimento.


A amizade para os angolanos crescia nos mesmos meios sociais, de tal modo que eram grandes amigos àqueles que praticavam as mesmas actividades, pessoas da mesma tribo ou ainda do mesmo clã. No presente, o círculo de amizade tornou-se mais abrangente: pessoas com profissões distintas, tribos e clãs diferentes, unem-se, a fim de rebuscarem as riquezas que cada um pode oferecer, para edificar com mais fertilidade a amizade ou ainda pela permuta de conhecimentos dos diversos ofícios.


O angolano doa-se, e esta doação faz estreitar cada vez mais os laços cordiais de amizade, que podem ter começado numa festa, num salão, numa reunião, num funeral ou em qualquer lugar onde as pessoas encontram-se para partilharem ideias, sentimentos…Para os angolanos a amizade gera-se pelo agrado que a presença do outro proporciona: a maneira de falar, de agir, de estar, ou seja, o “modus essendi” o modo de ser.


A amizade para os portugueses assenta num processo gradual, que se gera pela afinidade de gostos e ocupações ou pela diferença que completa ou pura e simplesmente pelo interesse social, económico e político.


O português facilmente inicia um diálogo com um desconhecido. É habitualmente informal e sem dificuldade comunica com os outros. A amizade acontece após um processo de mútuo conhecimento. Não existe propriamente um momento determinado que garanta a solidez da relação. Simplesmente habituamo-nos a partilhar a vida e os problemas.


Em Angola o maior e melhor amigo, é aquele que não está presente apenas em momentos de alegria e abundância, mas também em momentos de tristeza e penúria. “Se queres saber quantos amigos tens dá uma festa, mas só saberás a qualidade de amigos que tens se tiveres na cadeia ou hospitalizado”. Entretanto, várias são as formas de comunicação entre os amigos, dentre elas podemos destacar o assobio – sinal de alerta que congrega os amigos num determinado lugar –; as trocas de olhar, a gíria, ou outros sinais que apenas o grupo de amigos conhece.


Em Portugal uma amizade cresce com o tempo. Não se gera instantaneamente. Habitualmente existem uma série de actividades que se desenvolvem em conjunto: entre as crianças, o jogo; entre os jovens, a ida ao cinema, a um concerto, a um bar ou discoteca; entre os homens, o beber uns copos, a participação num desafio de futebol; entre as mulheres, a partilha dos problemas e o diálogo mais intimista; entre os mais velhos a memória do passado e a habitual enumeração dos problemas de saúde de cada um. Uma das regras fundamentais da amizade é a separação entre o compromisso social e o apoio económico. “Amigos, amigos, negócios à parte”.


A recepção de um amigo para os angolanos é motivo de júbilo, por vezes o tempo é insuficiente para partilharem tanta alegria. Os mais velhos ao receberem os seus contemporâneos, recordam as memórias do passado, os momentos alegres e difíceis que passaram juntos; entre os jovens, a partilha de diversos temas. Porém, enquanto vão recordando os tempos idos “mais velhos” ou reflectindo temas “jovens” prepara-se um almoço, lanche ou jantar de carácter festivo, e o lugar mais cómodo que haver em casa para acolher o amigo.


O gesto mais comum entre amigos portugueses manifesta-se no hábito de convidar para um café. Quando se recebe em casa não existem propriamente normas definidas, senão a de receber com hospitalidade. A forma de acolhimento é diversa de região para região. Não obstante, um número significativo de pessoas quando recebe uma visita de amigos e não dispõe de outros quartos cede generosamente o seu. Além disso, nas terras onde se convida para uma refeição, especialmente as donas de casa costumam insistir, por vezes até em demasia, para que o conviva coma e se sinta à vontade.


A amizade, independentemente das suas manifestações culturais, é sempre amizade. Amigos, em Portugal, kambas, em Angola. O sentimento é transversal a todas as culturas, pois rompe todos os preconceitos e diferenças étnicas e sociais. 

 
 

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A amizade, independentemente das suas manifestações culturais, é sempre amizade. Amigos, em Portugal, kambas, em Angola. O sentimento é transversal a todas as culturas, pois rompe todos os preconceitos e diferenças étnicas e sociais.

 

 
     

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