No dia seguinte, acordei. Rodei sobre mim
mesmo e aconcheguei no pano que me servia de
agasalho. Enrolei a esteira que me servia de
cama e, encostei-a num canto da despensa.
Agarrei numa caixa de fósforo que continha
carvão ralada e sal, uma caneca de litro de
plástico azul e fui à fonte buscar yàgu.
Escovei os dentes e lavei a cara. No mesmo
pátio estava algumas crianças a escovarem os
dentes com carvão ralados e sal; uma prática
habitual na Guiné. “Escovar dentes com
carvão e sal” diziam os homens grandes “os
dentes ficam mais brancos e fortes”.
Tomei o meu pequeno-almoço; pão com
manteiga, bebi um copo de limonada e saí…à
correr.
Debaixo da mangueira da ti Yota, já estavam
alguns colegas; o Rui, o Ncanandé, o Nelson,
o Zé Pedro, o Juvêncio, o Sadjá, o Mendi, o
Sidnay, todos a espera do Baba.
Passando alguns minutos ele chegou e, o Rui
insurgiu-se logo com ele. “ És sempre o
último a chegar, sempre… nbé”!!!
Ele retorquiu “ Cabra”
O Rui disse-lhe “ na espora”?
O Zé acrescentou ironicamente “ bode”
Rimo-nos todos. E o Baba perguntou o que
tínhamos pensado fazer.
Disse o Nelson, “ainda não pensamos no que
vamos fazer, sabes é que a malta, bem nós”…
Podíamos ir jogar zafio de encontro? Sugeriu
Mendy. É fixe, vá lá meus. Disse no seu
crioulo ferrugento.
Aceitamos a proposta, mas ficou decidido de
que a tarde jogaríamos o torneio da tampinha
e à noite brincaríamos aos casais.
Partimos em busca dos miúdos que queiram
jogar futebol connosco e, em cada Bairro por
onde íamos passando ouvia-se os ecos das
nossas vozes.
Eram gritos de guerreiros temíveis armados
com bola de saco de leite blúfo, bolas de
meia e às vezes desferrados.
À noite veio devagar e juntamo-nos na
bantabá para brincar aos casais. Havia em
nós uma ansiedade gritante.
Quem vai ser o primeiro, a pretendente? Tudo
tinha que ser esclarecido logo ali.
Brincar aos casais era a brincadeira que
ninguém gostava de faltar e fazíamos de tudo
para chegar cedo.
As meninas também harmonizavam entre elas e
no fim os eleitos ficavam sentados numa
esteira onde podiam namoriscarem. Havia uma
frase que a malta dizia sempre “ os nossos
pais não podiam presenciar e nem deviam
questionar, porque se se os disséssemos
batiam-nos, e também nem os irmãos, nem os
tios,”
Havia sempre aqueles que não tinham par. E
as vezes ficavam com ciúmes porque uns
repetiam as pretendentes e isso irritava-os.
Baba, bem este sabíamos de que ele e a Flora
gostavam um do outro. A Flora era uma menina
encantadora tinha um sorriso simplesmente
bonito e ficávamos sempre com a inveja dele.
Aquilo não durou muito, porque na infância
tudo passa, tudo é um ciclo de passagem que
se cumpri.
Yágu – água
Homens grandes – anciãos
Záfio – desafios
Blúfo – não circuncidado
Bantabá – Largo