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Pequi, aluno do Ensino Recorrente

Infância Dourada: memórias de um Guineense II

 

 
 

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No dia seguinte, acordei. Rodei sobre mim mesmo e aconcheguei no pano que me servia de agasalho. Enrolei a esteira que me servia de cama e, encostei-a num canto da despensa. Agarrei numa caixa de fósforo que continha carvão ralada e sal, uma caneca de litro de plástico azul e fui à fonte buscar yàgu.


Escovei os dentes e lavei a cara. No mesmo pátio estava algumas crianças a escovarem os dentes com carvão ralados e sal; uma prática habitual na Guiné. “Escovar dentes com carvão e sal” diziam os homens grandes “os dentes ficam mais brancos e fortes”.


Tomei o meu pequeno-almoço; pão com manteiga, bebi um copo de limonada e saí…à correr.
Debaixo da mangueira da ti Yota, já estavam alguns colegas; o Rui, o Ncanandé, o Nelson, o Zé Pedro, o Juvêncio, o Sadjá, o Mendi, o Sidnay, todos a espera do Baba.


Passando alguns minutos ele chegou e, o Rui insurgiu-se logo com ele. “ És sempre o último a chegar, sempre… nbé”!!!
Ele retorquiu “ Cabra”
O Rui disse-lhe “ na espora”?
O Zé acrescentou ironicamente “ bode”
Rimo-nos todos. E o Baba perguntou o que tínhamos pensado fazer.
Disse o Nelson, “ainda não pensamos no que vamos fazer, sabes é que a malta, bem nós”…
Podíamos ir jogar zafio de encontro? Sugeriu Mendy. É fixe, vá lá meus. Disse no seu crioulo ferrugento.


Aceitamos a proposta, mas ficou decidido de que a tarde jogaríamos o torneio da tampinha e à noite brincaríamos aos casais.


Partimos em busca dos miúdos que queiram jogar futebol connosco e, em cada Bairro por onde íamos passando ouvia-se os ecos das nossas vozes.


Eram gritos de guerreiros temíveis armados com bola de saco de leite blúfo, bolas de meia e às vezes desferrados.


À noite veio devagar e juntamo-nos na bantabá para brincar aos casais. Havia em nós uma ansiedade gritante.


Quem vai ser o primeiro, a pretendente? Tudo tinha que ser esclarecido logo ali.


Brincar aos casais era a brincadeira que ninguém gostava de faltar e fazíamos de tudo para chegar cedo.


As meninas também harmonizavam entre elas e no fim os eleitos ficavam sentados numa esteira onde podiam namoriscarem. Havia uma frase que a malta dizia sempre “ os nossos pais não podiam presenciar e nem deviam questionar, porque se se os disséssemos batiam-nos, e também nem os irmãos, nem os tios,”


Havia sempre aqueles que não tinham par. E as vezes ficavam com ciúmes porque uns repetiam as pretendentes e isso irritava-os.


Baba, bem este sabíamos de que ele e a Flora gostavam um do outro. A Flora era uma menina encantadora tinha um sorriso simplesmente bonito e ficávamos sempre com a inveja dele.


Aquilo não durou muito, porque na infância tudo passa, tudo é um ciclo de passagem que se cumpri.   

    

Yágu – água
Homens grandes – anciãos
Záfio – desafios
Blúfo – não circuncidado
Bantabá – Largo 

 
 

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No dia seguinte, acordei. Rodei sobre mim mesmo e aconcheguei no pano que me servia de agasalho. Enrolei a esteira que me servia de cama e, encostei-a num canto da despensa. Agarrei numa caixa de fósforo que continha carvão ralada e sal, uma caneca de litro de plástico azul e fui à fonte buscar yàgu.

 

 
     

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