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Junho 06 / João Nazário, Professor de Educação Física

A ditadura da imagem

 

 
 

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Há cerca de 20-30 anos, as famílias portuguesas eram as que mais poupavam na Europa. O país tinha atravessado várias décadas de Estado Novo, em que as políticas educativas e económicas seguidas, a guerra colonial e o espírito do “orgulhosamente sós” imposto por Salazar, que nos afastava do resto do mundo, levaram a que a maioria da população fosse obrigada a viver de forma austera. O período pós 25 de Abril, com a instabilidade política que se vivia, associada à grave crise petrolífera mundial dos anos 80, também não se revelou fácil para os portugueses que continuaram a ter que ser rigorosos na forma como geriam o seu dinheiro.


Entretanto, com a entrada de Portugal na União Europeia conjugada com uma conjuntura económica internacional favorável, viveram-se tempos de maior prosperidade, com um elevado crescimento económico e a melhoria das condições de vida da generalidade dos portugueses.


O país modificou-se a vários níveis. Construíram-se auto-estradas, hospitais e universidades, diminuiu a mortalidade infantil e o analfabetismo, a inflação e as taxas de juro desceram consideravelmente. De uma forma geral, passou-se a viver melhor. Fruto desse desenvolvimento e da melhoria das condições de vida da população, nomeadamente a nível económico, as principais marcas internacionais olharam com outro interesse para o mercado Português, identificando aí oportunidade de penetrarem com os seus produtos. Portugal foi, então, literalmente invadido pelos gigantes internacionais que, para afirmarem os seus artigos, recorrem a agressivas campanhas de marketing. O apelo à compra e ao consumo aumentou exponencialmente.


As novas gerações, as que actualmente se encontram a estudar, cresceram, portanto, num contexto substancialmente diferente do dos seus pais e avôs. As solicitações e a indução para a compra, a variedade de oferta e a importância que se atribui à imagem não têm paralelo com o que se passava há duas décadas. Actualmente, os portugueses não criam poupança. Passaram dos mais poupados para o grupo dos que menos amealham. Os anos 90 criaram nos portugueses a ilusão de que poderiam viver como os seus parceiros europeus, conduzir os mesmos carros, vestir as mesmas roupas, usar os mesmos relógios, viajar para os mesmos destinos turísticos. Puro engano. A generalidade dos portugueses não tem condições para fazer a vida que faz. Os mais jovens têm agora dificuldade em lidar com essa situação, pois a “ditadura da imagem” e do “ter” está completamente implantada nas suas gerações. Muitos pais não conseguem dizer “não” a um filho quando todos os outros colegas da escola têm as sapatilhas X, as calças Y, o telemóvel Z, e quando, muitas vezes, o utilizar determinada roupa ou frequentar certo local é que os posiciona no grupo. Muitos pais, não conseguindo dizer não, abdicam da sua vida, de ter as suas coisas, de desfrutar do seu tempo livre, para conseguirem responder aos pedidos dos seus filhos, criando-lhes a ilusão de que a vida é assim, que terão sempre o que desejam...


Estão, no entanto, a prejudicar os seus educandos ao compactuarem com uma hierarquização de valores errada. É o ter a sobrepor-se ao saber. O parecer a superar o ser. A embalagem a ter mais importância que o conteúdo. Inversão que, no futuro, poderá ser cruel, já que muito poucos conseguem ganhar a vida apenas com a imagem que têm...

 
 

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O período pós 25 de Abril, com a instabilidade política que se vivia, associada à grave crise petrolífera mundial dos anos 80, também não se revelou fácil para os portugueses que continuaram a ter que ser rigorosos na forma como geriam o seu dinheiro.

 

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