Há cerca de 20-30 anos, as
famílias portuguesas eram as que mais
poupavam na Europa. O país tinha atravessado
várias décadas de Estado Novo, em que as
políticas educativas e económicas seguidas,
a guerra colonial e o espírito do
“orgulhosamente sós” imposto por Salazar,
que nos afastava do resto do mundo, levaram
a que a maioria da população fosse obrigada
a viver de forma austera. O período pós 25
de Abril, com a instabilidade política que
se vivia, associada à grave crise
petrolífera mundial dos anos 80, também não
se revelou fácil para os portugueses que
continuaram a ter que ser rigorosos na forma
como geriam o seu dinheiro.
Entretanto, com a entrada de Portugal na
União Europeia conjugada com uma conjuntura
económica internacional favorável,
viveram-se tempos de maior prosperidade, com
um elevado crescimento económico e a
melhoria das condições de vida da
generalidade dos portugueses.
O país modificou-se a vários níveis.
Construíram-se auto-estradas, hospitais e
universidades, diminuiu a mortalidade
infantil e o analfabetismo, a inflação e as
taxas de juro desceram consideravelmente. De
uma forma geral, passou-se a viver melhor.
Fruto desse desenvolvimento e da melhoria
das condições de vida da população,
nomeadamente a nível económico, as
principais marcas internacionais olharam com
outro interesse para o mercado Português,
identificando aí oportunidade de penetrarem
com os seus produtos. Portugal foi, então,
literalmente invadido pelos gigantes
internacionais que, para afirmarem os seus
artigos, recorrem a agressivas campanhas de
marketing. O apelo à compra e ao consumo
aumentou exponencialmente.
As novas gerações, as que actualmente se
encontram a estudar, cresceram, portanto,
num contexto substancialmente diferente do
dos seus pais e avôs. As solicitações e a
indução para a compra, a variedade de oferta
e a importância que se atribui à imagem não
têm paralelo com o que se passava há duas
décadas. Actualmente, os portugueses não
criam poupança. Passaram dos mais poupados
para o grupo dos que menos amealham. Os anos
90 criaram nos portugueses a ilusão de que
poderiam viver como os seus parceiros
europeus, conduzir os mesmos carros, vestir
as mesmas roupas, usar os mesmos relógios,
viajar para os mesmos destinos turísticos.
Puro engano. A generalidade dos portugueses
não tem condições para fazer a vida que faz.
Os mais jovens têm agora dificuldade em
lidar com essa situação, pois a “ditadura da
imagem” e do “ter” está completamente
implantada nas suas gerações. Muitos pais
não conseguem dizer “não” a um filho quando
todos os outros colegas da escola têm as
sapatilhas X, as calças Y, o telemóvel Z, e
quando, muitas vezes, o utilizar determinada
roupa ou frequentar certo local é que os
posiciona no grupo. Muitos pais, não
conseguindo dizer não, abdicam da sua vida,
de ter as suas coisas, de desfrutar do seu
tempo livre, para conseguirem responder aos
pedidos dos seus filhos, criando-lhes a
ilusão de que a vida é assim, que terão
sempre o que desejam...
Estão, no entanto, a prejudicar os seus
educandos ao compactuarem com uma
hierarquização de valores errada. É o ter a
sobrepor-se ao saber. O parecer a superar o
ser. A embalagem a ter mais importância que
o conteúdo. Inversão que, no futuro, poderá
ser cruel, já que muito poucos conseguem
ganhar a vida apenas com a imagem que têm...